27 de mar de 2011

Vozes Espirituais - Parte I



por Luiz Santiago


     Para um espectador desavisado que porventura fosse ver Vozes Espirituais apenas como um filme de guerra, certamente desistiria nos minutos iniciais da primeira parte, já que o tema bélico passa longe desse prólogo. Vozes Espirituais é um documentário com 5h30min. de duração (dividido em cinco partes), gravado na região fronteiriça entre o Afeganistão e o Tadjiquistão, e acompanha os exercícios de guerra e as batalhas do Exército russo. Dirigido pelo mestre Aleksandr Sokúrov, Vozes Espirituais não é apenas um documentário sobre a guerra, mas também uma visita ao coração dos soldados, uma visão dos sentimentos humanos por trás das armas, do medo e do perigo.

     A primeira parte do filme dura 37 minutos e tem apenas dois cenários. O primeiro, predominante, é uma belíssima panorâmica sobre uma paisagem enevoada, cortada por árvores e águas no horizonte em diagonal. O segundo, que aparece rapidamente em dois momentos distintos, é o quarto de um soldado. Com essas duas ambientações plasmadas em escuros tons invernais, Sokúrov faz a primeira incursão na alma de um combatente através do sonho. O cenário predominante nos remete ao mundo onírico quando uma sutil fusão de imagem mostra o rosto de um soldado dormindo. Além da realidade física do espaço natural (como lugar existente, que está na tela para nos levar à reflexão sobre algo), podemos entender o gigantesco plano-sequência que o registra como a própria matéria do sonho, o mundo calmo e ideal, contraste da turbulenta realidade no campo de batalha. Um homem na guerra, em árida terra estrangeira, sonha com a paz de sua pátria gélida.


     A câmera está fixa o tempo inteiro. Após os créditos de abertura, nos deparamos com um plano externo que se estenderá por quase todo o filme. Não há montagem de planos até as cenas finais. A imagem que vemos, no entanto, está em constante movimento. Através da técnica de aceleração, vemos o sol percorrer a paisagem, projetar sombras e luzes sobre ela; vemos nuvens, névoa; vemos um homem passar pelo campo inóspito, uma fogueira acender-se e apagar-se, e ao fundo, a narração de Sokúrov nos apresenta concertos para piano de Mozart, Messiaen e a Sétima Sinfonia de Beethoven, ao mesmo tempo que ouvimos o som de pássaros, aviões, vozes e madeira crepitando. A música e o som direto parecem fazer parte do plano fixo, encaixam-se materialmente ao espaço. O espectador sente a paisagem. E como num sonho, desperta assustado (e deslumbrado) quando o que pensava ser uma forte nevasca revela-se um primeiro plano em uma pessoa.

     A abertura de Vozes Espirituais é um momento de reflexão através de algo completamente oposto ao objeto do documentário. A poesia cinematográfica desse episódio é feita com a música e uma imagem que só se modifica internamente. O plano técnico, como em qualquer outro filme de Sokúrov, é escrupulosamente bem pensado, com ângulos e posição de câmera bem escolhidos. As nuances fotográficas naturais e trabalhadas em estúdio dão às cenas um misto de irrealidade e realismo natural tremendos. Através da definição física dada pelos contemporâneos de Mozart, da potencialidade independente da música de Messiaen e da genialidade harmônica de Beethoven, vemos surgir no filme um hino elegíaco à vida, ao homem enquanto ser modificador do mundo, necessário ao Universo, independente de suas características físicas, posição social ou atividades. A primeira parte de Vozes Espirituais é uma reflexão sobre a responsabilidade e a sensibilidade do Ser. Como que para justificar o título, o diretor optou por fazer nessa primeira parte uma verdadeira (e tocante) voz espiritual. O resultado é impossível descrever completamente.


VOZES ESPIRITUAIS – 1ª Parte (Dukhovnye Golosa, Rússia, 1995).
Direção: Aleksandr Sokúrov
Câmera: Aleksandr Burov
Som: Sergei Moshkov
Música: Wolfgang Amadeus Mozart, Olivier Messiaen, Ludwig van Beethoven
Elenco: Soldado russo, Aleksandr Sokúrov (narrador).


AVALIAÇÃO DESSA PARTE DO FILME: MUITO BOM.

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