25 de mar de 2011

Death Note - O Filme (2006)



por Luiz Santiago


     A história já se tornou um clássico popular entre os jovens ligados à cultura de animes e mangás japoneses: Raito, genial estudante de 17 anos, encontra um caderno que tem o poder de matar qualquer pessoa cujo nome for escrito em suas páginas.

     Concebido por Tsugumi Ohba e ilustrado por Takeshi Obata, Death Note é um dos melhores mangás já lançados no país dos samurais. A história centra-se em uma coluna moral e discute questões como pena de morte, sistema judiciário e mundo sobrenatural, numa ampla rede de conexões que abrange grandes conglomerados econômicos, investigadores excêntricos, frieza assassina e busca pelo poder.

     Em 2006, além do anime baseado na série, surgiram dois filmes. O primeiro deles, objeto de nossa breve análise, tem título homônimo ao mangá, e seu roteiro vai das origens da trama até o momento em que Raito entra para a equipe que investiga Kira (ou ele próprio). O filme, no entanto, não conta a história de uma maneira tão fascinante quanto o material original ou mesmo como o anime. Todavia, traz bons momentos para o espectador, em seus mais de 120 minutos de duração.


     A primeira coisa que devemos observar é que o cinema tem um formato e uma dinâmica muito próprias, o que impede de levar para a grande tela a maioria das coisas que a literatura ou os quadrinhos apresentam. Nesse sentido, Death Note – O Filme, é quase muito bom. As sequências iniciais são dispostas de uma maneira tão interessante, que realmente nos impressiona. A organização dos fatos é feita aos poucos, sempre partindo de um suspense ou ação definitivos para o andamento da história. Flashbacks e flashforwards se intercalam até que o filme alcance o tempo presente, e a partir daí siga a história sem grandes alterações temporais. Raito inicia o filme como um defensor da justiça, mas se indigna com as enormes falhas do sistema, e suas atitudes após a posse do Death Note parecem justificar-se por essa guinada de opinião pessoal. É então que ele se autodenomina o “Deus do Novo Mundo”.

     As relações de poder e a cadeia de obediência e elementos subjugados por seu exercício é enorme. Desobedecer a um poder instituído é quebrar o contrato social, e o indivíduo deve arcar com as consequências de suas ações. Para Raito, essa concepção é correta desde que funcione, pensamento que se dissipa após o episódio do criminoso que o ameaça em um bar. Por outro lado, temos a polícia, que se perde em métodos mais diversos a fim de encontrar o “assassino de criminosos”. Matar um criminoso é legítimo? Torturar alguém para conseguir a verdade é legítimo? Kira e L agem dessa forma para alcançarem suas metas, e não podemos dizer que existe um modo “suave” entre essas duas atitudes. Em um mundo onde tudo o que foge ao controle do homem causa extremo pavor, tudo é válido para que se descubra a origem ou extermine de vez o que é considerado “ruim”, mesmo que métodos nada humanitários sejam aplicados nessa tentativa.


     O elenco de apoio em Death Note aparece melhor em cena do que os protagonistas. Raito e L, especialmente esse último, merecem as maiores pedradas. Enquanto Raito tem uma passagem extremamente rápida de bom menino para um poderoso e antipático assassino, L conserva os mesmos trejeitos afetados e excêntricos apresentados no mangá, mas a atuação não ultrapassa esse patamar, o que o torna pouco expressivo em termos actantes. Mesmo assim, é muito interessante observar em película aquilo que só nos traços dos quadrinhos podíamos ver. Mais por efeito passional do que artístico, o espectador acaba gostando do que lhe é mostrado.

     Raito é uma espécie de Anticristo. Sua ascensão social e os artifícios “mágicos” que possui lembram muito os relatos que temos sobre esse ícone inimigo da cristandade. No caso de Death Note, o “Deus do Novo Mundo” quer ser temido por “fazer o bem”, ou seja, livrar o mundo dos criminosos. A fotografia que ilumina o filme é urbana, bem pensada em intensidade e distribuição de cores, bem como a direção de arte, especialmente nos ambientes internos, com destaque para o quarto de Raito e o apartamento de L.


     Mesmo guardando as proporções da adaptação para o cinema, é impossível não criticar essa primeira parte da história (o filme foi originalmente concebido em duas partes, e como já disse no início, esse primeiro volume termina quando Raito entra para a equipe que investiga Kira), uma adaptação razoável de um produto absurdamente genial. É impossível localizar o erro, por esse é plural, está em pequenas doses espalhadas por toda a película, o que faz dela uma dessas obras que você só consegue lembrar de umas poucas cenas (as realmente boas) e se esquecer de todo o resto, dada a insignificância com que esse resto é mostrado.


DEATH NOTE (Desu Nôto, Japão, 2006).
Direção: Shusuke Kaneko
Elenco: Tatsuya Fujiwara, Kenichi Matsuyama, Asaka Seto, Shigeki Hosokawa, Erika Toda, Shunji Fujimura, Takeshi Kaga, Yu Kashii, Shidô Nakamura.


FILME BOM. RECOMENDAMOS ASSISTIR.

Twitter Delicious Digg Stumbleupon Favorites More

 
Powered by Blogger