29 de mar de 2011

All Together Now (2008)



por Luiz Santiago


     Quando assistimos a um documentário, muito da relação que temos com o objeto retratado na tela pode influenciar a nossa opinião sobre a obra. É claro que essa afirmação óbvia não se prende apenas ao gênero documentário, mas penso que especialmente esse gênero nos reserva uma dose maior de identificação, tanto pior se esse documentário retrata um episódio de duas coisas que você gosta muito. No meu caso, tal identificação se deu de forma muito particular em All Together Now (2008), uma película formalmente simples que traz à tona a preparação do espetáculo teatral LOVE, encenado pelo Cirque du Soleil a partir da música dos Beatles, uma parceria que surgiu da amizade do criador do circo, Guy Laliberte, com George Harrison. O documentário segue mais ou menos a linha de um “musical de bastidor”, mas traz entrevistas, preparação do show, diálogo entre artistas e produtores e trechos das apresentações nos ensaios e na estreia do espetáculo.

     A emoção de ver o trabalho visual e coreográfico estupendo do Cirque du Soleil, que nesse espetáculo não prioriza o malabarismo, dando mais atenção à preparação cênica e sentimental em relação às músicas, e uma antológica seleção da carreira dos Beatles consegue nos convencer a apenas sentir e ouvir aquilo que nos é apresentado. Certo ou não, qualquer fã da banda que assistir ao filme terá uma série de surpresas e a oportunidade de ver a representação visual de lendárias e inesquecíveis canções.


     O interessante é que o documentário não se fixa apenas no campo artístico. As questões e imposições da produção (a Apple foi uma das produtoras do show), a rigorosa seleção e preparação musical e a própria concepção do espetáculo são trabalhados alternadamente, não cansando o espectador com um único olhar para um único tema, ao contrário, temos muita vontade de ver mais cenas do espetáculo, ou ouvir mais opiniões a respeito de uma música específica, etc. Embora não seja um primor de filme, All Together Now nos traz à tona uma onde de sentimentos que misturam nostalgia, amor à música, história, juventude, revolução e morte.

     Em crescendo, o espetáculo se cria, e ao chegar às sequências finais temos uma revelação de cor, música e movimento. A ânsia por querer assistir mais alcança o seu ponto máximo no final, e a cada música que muito rapidamente é mostrada, já em sua versão final, cresce a onda de emoção que nos acompanha. Ao término do filme, nos damos conta de que não se trata apenas dos “bastidores de uma grande produção”, mas de um filme que faz surgir em cada um nós um sentimento único, vindo de uma época que pessoas como eu não viveu, mas que de tão intensa, consegue se fazer sentir mesmo afastada no tempo e no espaço. All Together Now é um filme que deve ser visto não apenas pelo objeto documentado mas principalmente pelo que consegue transmitir, e posso afirmar que não é pouca coisa.


ALL TOGETHER NOW (Canadá, UK, 2008).
Direção: Adrian Wills


FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.



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