9 de jan de 2011

Machete


Rápido e cortante

por Adriano de Oliveira



     O trailer que virou filme. Assim poderia ser definido "Machete" (2010), longa de Robert Rodriguez em co-direção com Ethan Maniquis, antigo colaborador (e mais tarde, autor) da edição de filmes anteriores do primeiro.

     Tudo começou no projeto "Grindhouse" (2007), onde Rodriguez e seupartner Quentin Tarantino fizeram uma homenagem às velhas sessões duplas de filmes B, geralmente versando sobre violência, sexo ou algum tipo deexploitation, em cinemas americanos menos conceituados. No intento, os filmes "Planeta Terror" do primeiro e "À Prova de Morte" do segundo, eram exibidos na sequência, sendo intermediada a exibição entre um e outro por trailers falsos especialmente feitos para o projeto, entre os quais o de"Machete"."Grindhouse" somente rodou em sua forma original nas terras do Tio Sam, sendo desmembrado em dois para o resto do mundo. No Brasil, os filmes foram exibidos com uma bela diferença temporal entre os lançamentos dos mesmos e se encontram disponíveis em DVD.

     Com uma onda de fãs do trailer fake na internet, Robert apostou em fazer dele um longa - ou seja, "transformar o rascunho em arte final", seguindo o espírito de um dos versos da canção "Como Eu Quero" (de Leoni e Paula Toller). E o bacana é que as cenas do preview praticamente se repetem no filme - com pequenas alterações, como mudanças de atores secundários entre uma produção e outra.



      "Machete" precisa ser visto como (mais um) divertimento de Rodriguez e não sob aquela ótica com que críticos obsessivamente o atacam, esperando que ele seja um "segundo Tarantino" ou um autor por excelência, algo que o diretor não é. Evidentemente, dentro de um processo simbiótico do ponto de vista intelectual, Rodriguez absorve e repete ideias tarantinescas em seu novo filme, como o emprego de atores de (relativo) sucesso imediato no passado que caíram no esquecimento - seu velho colaborador Cheech Marin, um quase irreconhecível Don Johnson do seriado oitentista "Miami Vice", Tom Savini de "Cavaleiros de Aço" (George Romero, 1981), o eterno coadjuvante Jeff Fahey - e a inserção de poluições visuais artificiais, como riscos e "poeiras", recurso para dar um ar vintage à película apresentada.

     Aliás, o elenco de "Machete" se mostra dos mais inusitados. Além do "time" de veteranos supra-citado, há aparições exorbitantes ali: Robert De Niro(!) muito caricatural, como nas suas recentes atuações (exceto na sua performance competente em "Homens em Fúria", do ano passado); Daryl Sabara, que foi o "grande ator mirim" de Rodriguez em "Pequenos Espiões"e suas continuações, agora é um pós-adolescente; um Steven Seagal que não toma jeito como ator, mas está um pouco mais divertido do que aquele robô que luta aikidô e usa revólver de seus filmes nos últimos dez anos. Também temos Nimród Antal, um húngaro-americano conhecido por dirigir filmes fracos ou medianos ("Temos Vagas""Assalto ao Carro Blindado","Predadores"), realizando uma ponta como um segurança particular do antagonista interpretado por Jeff Fahey. O papel-título é encarnado por Danny Trejo, um sessentão que já puxou cadeia e depois enveredou pela carreira de ator. Sempre fazendo de vilão, aqui ele quebra paradigma e vira "herói". No caso, Machete é um ex-agente da polícia federal mexicana que surge vítima de dois golpes e vai à forra contra seus inimigos.

     Ainda cabe falar do casting feminino da película. Sem muita inventividade, Robert faz de Michelle Rodriguez, ao final do longa, quase que exclusivamente uma versão latina e sem metralhadora na perna da personagem de Rose McGowan em "Planeta Terror"; menos mal que a líder clandestina Shé que Michelle interpreta, constitui filmicamente uma brincadeira - mais no sentido fonético do que qualquer outra intenção - com o lendário guerrilheiro Che (Guevara). Jessica Alba continua a gracinha de sempre e a má atriz de sempre; o que a salva está em sua beleza inegável e numa homenagem do diretor-roteirista: ela é Sartana, cujo nome constitui alusão a um personagem que deu títulos à uma dezena de spaghetti westernsde baixa qualidade nos anos 60 e 70. Lindsay Lohan entra em campo, e de memorável produz pouco além de uma piadinha com o personagem de De Niro; já a sua cena na piscina sugere a presença de uma dublê de corpo. Quem não exigiu e nem precisa de body double nenhuma, é a exuberante novata Mayra Leal, que surpreende duplamente: por sua nudez e por sua semelhança com a estrela latina Eva Mendes.



     Rodriguez passa o filme todo empregando ultra-violência (da qual a arma que dá nome ao personagem-título é um ícone) e humor de natureza mórbida - cujo supra-sumo está na cena onde Machete pula de um andar a outro de um hospital utilizando-se das vísceras de um oponente como corda. Por sinal, o protagonista se mostra um especialista no uso de armas brancas, desfilando em cena um emprego sem fim das mesmas, com um número de "variações" impressionante.

     Mesmo que se relevem algumas situações absurdas que vão se sucedendo na trama, não é possível deixar de se incomodar com certos furos do roteiro e outros exageros que deixam o filme às raias de uma ficção científica. Com isso, sacadas boas da fita, como a fusão de um incêndio no espaço diegético com as chamas fake do selo do Troublemaker Studios ou uma referência divertida a um efeito sonoro do seriado setentista "O Homem de Seis Milhões de Dólares", ficam um tanto eclipsadas.


Artigo originalmente publicado no Cine Revista.


MACHETE (Idem, EUA, 2010) 
Direção: Ethan Maniquis e Robert Rodriguez. 
Elenco principal: Danny Trejo, Jessica Alba, Jeff Fahey, Robert De Niro, Don Johnson, Steven Seagal, Michelle Rodriguez. 


FILME BOM. RECOMENDAMOS ASSISTIR.

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