24 de jan de 2011

Aviso aos Navegantes (1950)


por Luiz Santiago


     As chanchadas brasileiras possuem um especial encanto. Uma mistura de elementos hollywoodianos e carnaval brasileiro, os filmes chanchadescos se caracterizam especialmente por seu viés musical e dançante, seus temas-comédia e as questões sociais muito evidentes: as classes, a busca pela ascensão, o poder do dinheiro, a malandragem. Criticados pelos cineastas do Cinema Novo como alienantes, esses filmes foram empurrados para o limbo da memória cinematográfica, e até mesmo os diretores pareciam ter vergonha de admitir terem dirigido chanchadas. Embora a maior parte dessas obras não seja boa, é interessante observamos como o imaginário popular recebia cada novo lançamento, como as músicas tornavam-se destaque no Carnaval, e como os cinemas lotavam as salas que exibiam esses filmes – algo que se perdeu completamente na década de 1960, com a “nova visão” dos cinemanovistas.

     Aviso aos Navegantes (1950), de Watson Macedo, é uma das mais populares e queridas chanchadas da história da Atlântida, o estúdio que mais produziu esse tipo de filme. Com um elenco de atores muito queridos do povo brasileiro na época, e tendo a impagável dupla Oscarito e Grande Otelo no meio da confusão, o filme é um dos mais representativos do período. Praticamente todo filmado em internas, Aviso aos Navegantes é a história de um navio cheio de artistas que parte de Buenos Aires em direção ao Rio de Janeiro. A bordo, há o príncipe Suave Leão, o Professor Scaramouche, um clandestino sem passaporte, dentre outros curiosos tripulantes. No meio da viagem, descobre-se que há um espião no navio, e uma longa e disfarçada caçada é empreendida. Além disso, desencontros amorosos, intrigas, e outros tropeços que servem de motor para a narrativa, acontecem. O filme intercala cenas de ação e suspense com número musicais completamente injustificáveis. Apesar de ter momentos extremamente criativos e delirantemente engraçados (como Oscarito vestido de rumbeira e dançando para uma grande plateia), a película é terrivelmente mal filmada, as coreografias muito feias (com exceção a da música Marcha Soldado), e a enorme quantidade de músicas faz o filme ser desnecessariamente muito longo.

Oscarito vestido de rumbeira, uma das cenas impagáveis do filme.

     Quando analisamos um filme, é necessário que levemos em conta as particularidades do gênero, do diretor, país e ano de produção, etc.. Analisar uma chanchada e usar as músicas como elemento catalisador da perda de qualidade do filme – como fiz ao fim do parágrafo anterior – parece loucura. No entanto, diversas outras chanchadas conseguem agradar e divertir o espectador mais exigente sem o excesso (e essa é a minha queixa) que temos no filme de Macedo. Obras como De Vento em Popa (1957) e Pintando o Sete (1959), ambas de Carlos Manga, são muito boas e nada entediantes. O problema de Aviso aos Navegantes está no excesso de músicas e no esburacado roteiro, que termina por deixar de lado várias situações propostas no roteiro, além de forçar um final súbito para a história que chega a ter momentos de delicioso entretenimento.

     O caos é a premissa de qualquer chanchada, e aqui, essa exigência se dá também através de um deslocamento comportamental da sociedade. Em seu livro O Mundo Como Chanchada, Rosângela de Oliveira Dias chama atenção para o fato de os filmes chanchadescos apresentarem o desvirtuamento de valores como algo natural, do mesmo modo que o ócio, a malandragem e a vida fácil. Assim, entendemos personagens como a mulher forte e dominadora, a presença de um conquistador afeminado, etc.. A resolução do caos, no entanto, não é necessário, contanto que o mal seja vencido ou punido no final.


     Embora conquiste o espectador, não vejo Aviso aos Navegantes como um filme que se sustenta plenamente, e permanece encantador do primeiro ao último minuto. Já citei alguns motivos que fazem-no enfadonho, e de como o excesso, comparado a outras chanchadas, torna-se quase chocante. Mesmo assim, trata-se de um obra do cinema brasileiro que é muito querida, e com certeza merece ser vista. Mas já adianto: embora faça rir e tenha algumas maravilhosas sequências, o filme não é uma obra prima entre as chanchadas. Não foi aqui que Watson Macedo acertou de todo a mão.


AVISO AOS NAVEGANTES (Brasil, 1950).
Direção: Watson Macedo
Elenco: Oscarito, Grande Otelo, Anselmo Duarte, Eliana Macedo, José Lewgoy, Zezé Macedo, Sérgio de Oliveira, Glauce Rocha, Mar Rúbia, Emilinha Borba, Ivon Cúri, Adelaide Chiozzo, Cuquita Carballo.

FILME REGULAR. ASSISTA SE TIVER TEMPO.

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