5 de dez de 2010

Festim Diabólico


Um crime perfeito?

por Cristiano Contreiras


     Não há delícia maior que um instigante filme de Alfred Hitchcock. Festim Diabólico reina como exemplo de suspense cruel, ferino e altamente inteligente. Uma obra que atinge os nervos, provoca frisson que é puro assombro. A premissa angustiante foca em dois amigos, Phillip Morgan e Brandon Shaw, que cometem um assassinato, matam o amigo David, em seu apartamento e decidem esconder o corpo em um baú. O requinte de malícia macabra: minutos depois, os convidados de um jantar oferecido por eles chegam ao apartamento - os pais, a noiva, a tia e até o concorrente do morto pelo amor de sua noiva, que jantam na mesa montada em cima do baú onde está o corpo. Para provar sua genialidade, a dupla de assassinos convida também seu professor, um homem perspicaz e de idéias avançadas, com a idéia de que, se eles conseguirem enganá-lo, provarão que um assassinato é, também, uma obra de arte, privilégio de inteligências e classes superiores. Os jovens têm personalidades diferentes: Brandon é altivo e tem uma personalidade forte, repleto de ironias e é o personagem que mais acentua o humor negro presente no roteiro do filme - altamente frio, calculista e racional. Seria sua forma de atingir a perfeição? Phillip é a fragilidade, totalmente emocional. Quão doentio pode ser o ato desses jovens? Qual razão para terem estrangulado o amigo?

     Ambos justificam o ato horrendo pela supremacia intelectual, inteligência e genialidade no gesto, da qual fariam parte, assim estariam livres para transgredir as regras e normas impostas pela moral tradicional, deixar de lado valores e dicotomias como certo e errado, bem e mal - esconder o cadáver no baú no meio da sala e promover, logo após o crime, uma festa privê com algumas pessoas demonstra o quão inconseqüentes são, desajustados. Psicopatia? O assassinato, se unicamente voltado à afirmação da superioridade do assassino, seria uma modalidade de criação artística. Matar unicamente pelo prazer de matar, pela excitação decorrente do crime, seria a culminação, a concretização da uma superioridade expressa na própria diferença intelectual existente entre assassino e vítima. No filme, o crime teria essa motivação intelectual: Brandon e Phillip consideram-se superiores em relação a ele, o assassinato com uma corda (Rope, daí o título original do filme) revela todo o condicionamento da frieza e arrogância. A concretização do crime perfeito?

     A delícia do roteiro é evidenciar a tensão crescente. No decorrer do jantar, segue-se um perturbador ambiente, quase irrespirável, onde Phillip se mostra cada vez mais descontrolado, apavorado diante da possibilidade de seu monstruoso crime vir à tona, e Brandon emite sinais contraditórios: ao mesmo tempo que pretende se preservar, mantendo em segredo o crime, não resiste ao apelo da vaidade e, pouco a pouco, dá varias indicações aos presentes, especialmente Rupert, do que de fato havia ocorrido no apartamento. Onde estaria David? Aos poucos, Rupert percebe que existe sujeira por baixo do tapete. Fareja a pura maldade?


     A teia interpretativa entre John Dall, Farley Granger e James Stewart - Brandon, Phillip e Rupert - é irretocável, intensa. O exercício de Hitchcock se define: o filme é inteiramente rodado em tomadas contínuas (plano-sequência), editado de tal forma que se tem a impressão que não houve cortes durante as filmagens. A linearidade narrativa, o espaço único (toda a ação desenvolve-se no apartamento) e a mise-en-scène criativa - o estilo argumentativo do filme, portanto, é bem evidente: tudo bem coreografado, um cuidado apurado de direção perfeccionista. Para não quebrar as seqüências, Hitchcok focava as costas de um dos personagens, trocava o rolo e reiniciava a ação partindo das costas para seguir em frente em seu teatro de suspense que, mesmo ambientado em apenas um ambiente, consegue acentuar atenção. Manter esse jogo durante 80 minutos em uma encenação sem cortes, com cada movimento e posição marcado e coreografado não é para qualquer um.

     Hitchcock amplia esse exercício com o movimento certo, com o close essencial, com a mudança de direção necessária enquanto amplia a tensão. É uma mescla entre o teatro e o cinema – repare como o cenário da cidade muda suavemente de tom, do fim de tarde até a noite – em uma história em tempo real onde a angústia, também, molda-se de forma quase imperceptível, mas extremamente palpável. O filme brinca com a dualidade dos sentimentos, num misto de ansiedade e temor pelo o que pode acontecer. A sensação de tempo-real contextualiza a obra-prima. Os diálogos são precisos, dá formação psicológica de cada personagem. Exercício técnico e interpretativo, um thriller elegante de 1948 que se mantém vigoroso: curioso como ele se mantém constante no clímax, em todas as cenas. Claustrofobia? É quase sutil, mas Brandon e Phillip exercem um fascínio um pelo outro, há uma homossexualidade velada: é nítido que ambos têm química sexual, intelectual e dividem momentos juntos. Mas, o roteiro deixa subentendido, quase imperceptível. Encenado com deleite, intrigante, engenhosa atmosfera irrespirável proposta por Hitchcock no seu primeiro filme em cores. Um clássico instigante que atinge o ápice.


Artigo originalmente publicado no Apimentário.


FESTIM DIABÓLICO (Rope, EUA, 1948).
Direção: Alfred Hitchcock.
Elenco: James Stewart, John Dall, Farley Granger, Cedric Hardwicke, Constance Collier.

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