20 de fev de 2011

Entrevista #1


Antonio Nahud Júnior

Jornalista e escritor, com carreira que cobre duas décadas de reportagem e comentário de cultura no Brasil e no exterior, em imprensa, televisão e internet. 

Editor do blog O Falcão Maltês


VOCÊ TEM DUAS DÉCADAS DE TRABALHO COM A CULTURA, ESPECIALMENTE A CINEMATOGRÁFICA. QUE MARCOS DO CINEMA – NOVOS DIRETORES OU FILMES – MAIS TE IMPRESSIONARAM DURANTE ESSES ANOS?

A sutileza do cinema oriental; a irreverência do cinema espanhol, com destaque para Amodóvar, Amenábar e Julio Medem; o delicado cotidiano do cinema argentino; a talentosa safra norte-americana que gerou Paul Thomas Anderson, Gus Van Sant, Tim Burton, os Coen etc.; o Brasil de Walter Salles, DanielaThomas, Sérgio Machado, Karim Ainouz, Lírio Ferreira, Cláudio Assis etc.; a popularidade do cinema de temática GLS (impressionou-me “O Segredo de Brokeback Mountain”); Fernanda Montenegro concorrendo ao Oscar de Melhor Atriz; o reconhecimento aos atores negros etc.

QUEM SE DIRECIONA A CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA HOJE EM DIA? O ESPECTADOR COMUM LÊ E ENTENDE CRÍTICAS

A crítica cinematográfica sempre foi alimentada por uns gatos pingados. Sobrevive como flerte de cinéfilos. Acredito que por mais conhecimentos que o profissional armazene, toda crítica é direcionada, talhada em rasgos pessoais. Eu sou daqueles que lê antigos críticos em busca de novos horizontes. Leio Pauline Kael, James Agee, Vincent Canby, a turma do Cahiers Du Cinema. No Brasil, gosto das resenhas de Sérgio Augusto, Paulo Emílio Salles Gomes e André Setaro.


EXISTE CINEMA DE AUTOR HOJE? VOCÊ PODERIA NOS DAR ALGUNS EXEMPLOS?

Com certeza. Poucos, como no passado. Toda obra cinematográfica que tem uma marca indelével, que é imediatamente reconhecível como típico filme de tal diretor, é autoral. Alejandro Gonzáles Inárritu, Pedro Almodóvar, Michael Haneke, Abbas Kiarostami, Nanni Moretti, Lars Von Trier, Emir Kusturica, entre outros, fazem um cinema de autor.


OS CHAMADOS “FILMES AUTORAIS” AFASTAM O ESPECTADOR COMUM, OU TRATA-SE APENAS DE UMA “EDUCAÇÃO DE GOSTO” EM RELAÇÃO AO CINEMA?

Depende do filme. Existem filmes autorais aparentemente “simples”, com linguagem direta com a sensibilidade do espectador mediano. Por exemplo, Tim Burton, Woody Allen, Iñarrítu.


COM TODO O APARATO TECNOLÓGICO DAS PRODUÇÕES A PARTIR DE 1990, O CINEMA TEM GANHADO OU PERDIDO EM QUALIDADE ARTÍSTICA?

Não sou nostálgico. Desde o inicio da história do cinema, tivemos bons filmes e outros esquecíveis. O aparato tecnológico não pode ser responsabilizado como o vilão da banalidade cinematográfica.

COMO VOCÊ VÊ O CINEMA BRASILEIRO HOJE? EM QUE PATAMAR DE PRODUÇÃO CINEMATOGRÁFICA ESTAMOS?

Desde sempre o cinema brasileiro vive a um passo da eternidade. Temos profissionais competentes, vez ou outra surgem obras instigantes, mas não existe um mercado cinematográfico fortalecido. O Brasil não descobriu o seu caminho no universo cinematográfico. Até mesmo o Cinema Novo é mais aplaudido do que realmente merece.

NOSSA LISTA DE FEVEREIRO É SOBRE O PRIMEIRO CINEMA. O QUE VOCÊ ACHA DESSE “PRIMEIRO MOMENTO” DA SÉTIMA ARTE?

Ainda muito experimental, sem rumo ou prumo. O vigor realmente começa em 1919 com o expressionismo alemão de “O Gabinete do Dr. Caligari”.


QUAL A IMPORTÂNCIA DA BLOGOSFERA PARA A DIFUSÃO DA CULTURA CINEMATOGRÁFICA?

Prova que não estamos sós. É a luz no final do túnel. Ainda mais no Brasil, onde publicações cinematográficas impressas são geralmente superficiais.


O QUE VOCÊ ACHA DE UMA INICIATIVA COMO A UNIÃO DE CINÉFILOS, PROPOSTA PELO CINEBULIÇÃO COM O “JÚRI DE CINÉFILOS”?

Bem bolada. Movimentos, correntes, iniciativas férteis, surgem principalmente através da união. Morro de rir da tolice de blogueiros individualistas, que vivem unicamente no seu mundinho. Acho que é preciso incentivar, trocar experiências, correr léguas de um canto a outro.


DEPOIS DE ESCREVER PARA TANTAS MÍDIAS, COMO É PARA VOCÊ MANTER NO AR UM BLOG COMO O FALCÃO MALTÊS?

Edito “O Falcão Maltês” com prazer, principalmente porque ele é voltado para o meu universo cinematográfico mais íntimo. O subtítulo do blog diz tudo: “uma viagem pessoal pela história do cinema”. Portanto, é uma alegria estudar, pesquisar, relembrar, escrever, selecionar imagens, rever filmes... Sem contar, o retorno animador, ou seja, os comentários honestos de gente de diversas partes do mundo.


QUAL A IMPORTÂNCIA DO CINEMA PARA A SOCIEDADE DO SÉCULO XXI?

O cinema é uma das maiores invenções da história da humanidade. Já anunciaram o seu falecido diversas vezes, mas ele está cada vez mais forte, sempre se adaptando aos novos tempos. Neste século de desilusões, sem espaço para ideologias, o cinema é um aconchego, um amigo dos melhores, uma crença num mundo melhor.


ANTONIO NAHUD JÚNIOR

     Escrevi para, entre outros, os jornais A Tarde (BA), Folha de S. Paulo, O Tempo (MG), Jornal de Hoje (RN), Jornal de Sintra (Portugal); e as revistas Profashional (SP) e Continente Multicultural (PE). Fui repórter na TV Manchete; apresentador e roteirista do Programa Fina Estampa, na TV Itabuna (BA). Lancei nova livros: O Aprendiz do AmorRetratos em Preto e Branco – Contos Góticos de MadriFicar Aqui Sem Ser Ouvido Por NinguémCaprichosArte Palavra – Conversas no Velho MundoUm Sentido Para a VidaSe Um Viajante Numa Espanha de LorcaSuave é o Coração Enamorado Livro de Imagens. Três deles publicados em Portugal. Vivi 12 anos na Europa, cobrindo festivais, premiações de cinema e bienais literárias. Sou autor do roteiro do curta-metragem português O Coração Enganador, de José Ricardo, e escrevi diversas peças de teatro.

* Antonio Nahud Júnior também é membro do Júri de Cinéfilos do Cinebulição.

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