16 de out de 2010

V de Vingança



"V" de Valoroso

por Adriano de Oliveira



     Em um futuro próximo, a Grã-Bretanha é governada de modo totalitário, com o uso do toque de recolher, e os concidadãos londrinos se mostram visivelmente desgostosos e oprimidos. Há analogias entre tal sistema político-administrativo e o nazismo: o chanceler britânico se chama Adam Sutler (que sonoramente lembra o nome do deplorável ditador Adolf Hitler), a polícia secreta do regime - os Fingermen - é um correspondente inglês da SS, as notícias são manipuladas em prol dos interesses do Estado e de sua propaganda. Um homem, de codinome "V", representa, na clandestinidade, a única voz contra tal opressão, agindo guerrilheira e solitariamente contra a sistemática do despotismo na tentativa de restaurar a democracia.


     Esta é a premissa de "V de Vingança", uma produção dos irmãos Larry e Andy Wachowski - criadores da inovadora trilogia "Matrix" -, dirigida pelo confiado da dupla James McTeigue, que fora primeiro assistente de direção na tríade de filmes citada. Não por acaso, aqui, as cenas de luta e a do metrô lembram tal obra-fonte. O roteiro é baseado na graphic novel homônima de Alan Moore, ilustrada por David Lloyd. Moore não quis seu nome vinculado a esta adaptação cinematográfica, sabe-se lá por quê. Se há um trabalho onde ele poderia ter feito tal atitude, este é o terrível "A Liga Extraordinária", que foi levado ao cinema baseado em HQs dele e se revelou uma desastrosa transposição de um cult consagrado nos gibis. Mas em "V", isso não ocorre, ao menos dentro do bom senso. Para leitores fiéis dos quadrinhos, o filme atual se mostrou satisfatoriamente próximo das tiras originais, embora contendo, e seria de se esperar, adaptações dramáticas tidas por necessárias, como dar mais linhas de diálogo ao personagem principal (que fala muito pouco, em sua essência na HQ) e intensificar sua relação com a protegida e posterior braço-direito dele, Evey.


     Cabe então frisar os bons trabalhos de Hugo Weaving, que, mascarado e fantasiado o tempo todo, consegue exprimir na voz e nos gestos as características comportamentais e psicológicas de codinome V, e de Natalie Portman, expressiva como sempre. Outro destaque vai para o belo, e infelizmente, último, trabalho do diretor de fotografia britânico Adrian Biddle, morto por um ataque cardíaco no final de 2005.


     Não bastasse todo o farto material para discussão que "V de Vingança"levanta nos terrenos político, econômico e social, inclusive em função de acontecimentos globais recentes, e cuja polêmica aumenta com a névoa que o filme produz, ao tornar indistinto o limite entre terrorismo e revolução, a obra ainda traz boas seqüências audiovisuais. Sem dúvida, a mais marcante delas está na cena da explosão do Parlamento, ao som da célebre "Abertura Solene 1812", de Piotr Ilych Tchaikowsky, invadindo nossas retinas e nossos tímpanos, provocando admiração e espanto, fazendo cumprir uma das funções essenciais do cinema, que é a de encantar a platéia.


Artigo originalmente publicado no Cine Revista.


V DE VINGANÇA (V for Vendetta, 2006)
Direção: James McTeigue.
Elenco: Hugo Weaving, Natalie Portman, Stephen Rea, Stephen Fry, Tim Pigott-Smith, John Hurt.

FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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