17 de out de 2010

A Prova


O paradoxo dos gênios


por Adriano de Oliveira


     "A Prova" é filme baseado numa peça que ganhou sua montagem londrina dirigida por John Madden e protagonizada por Gwyneth Paltrow. Como não poderia deixar de ser, a transposição de diretor e atriz principal para a sua versão para o cinema foi a escolha mais natural e, possivelmente, a mais acertada.

     A trama compreende um momento delicado na vida de Catherine (Paltrow), filha de um genial matemático (Anthony Hopkins), recentemente falecido. Ela cuidou do pai nos últimos anos da vida dele, período em que se acentuou a insanidade do cientista, e ao que parece, a jovem herdou não apenas o talento de seu genitor, mas também seus desvarios mentais, afetando a conduta psicológica e as relações sociais dela. "A Prova" não é em primeira mão uma obra sobre o fascinante mundo da Matemática, mas sim, um paradoxo entre tal universo regido por regras incorruptíveis e o cosmo da inexatidão do comportamento humano.


     Para tal empreitada, a produção se reveste de um instrumental necessário. A direção de Madden é segura, adotando uma narrativa que se confunde com a própria mente de Catherine: não-linear, com fluxos de memória, consciência e tempo. O espectador assim é jogado visceralmente para dentro do drama da protagonista, cuja atuação a cargo de Gwyneth Paltrow se mostra competente na maior parte da projeção, com alguns poucos deslizes. Representação que é bem assessorada por um mesmerizante Hopkins, como de praxe. Igualmente não se pode queixar também de Jake Gyllenhaal e Hope Davis, como um jovem matemático e a irmã de Catherine, respectivamente.

     Entrementes, fica um porém: não pela boa trilha sonora de Stephen Warbeck, mas pelo seu uso quase onipresente, excessivo. Se Matemática significa elegância - o que impõe medida certa -, o Cinema, idealmente, também é assim, ou deveria sê-lo.

     Ao menos, sobrou polidez no quesito em que Madden procura romper com as origens teatrais do argumento, fazendo fluentes movimentos de câmera e enquadramentos envolventes. Óbvio que não consegue fazer isso durante a fita inteira - surgem momentos típicos de palco -, mas demonstra umarésistance admirável a um "inimigo" nato. Por mais esta película, seu realizador se mostra fiel ao tipo de filme que permeia sua carreira de cineasta: o drama com toques ou prevalência de romance, seguindo o espírito de"Ethan Frome - Um Amor para Sempre""Sua Majestade, Mrs. Brown""Shakespeare Apaixonado" e "O Capitão Corelli".


     "A Prova" começa de modo perigoso, lembrando o insatisfatório "Tudo Acontece em Elizabethtown" de Cameron Crowe, e se aproxima fortemente, no decorrer da trama, do proficiente "Uma Mente Brilhante" de Ron Howard. Esses replays acabam tirando um pouco do brilho próprio do filme, embora este conserve uma certa identidade genuína. Seu mérito maior, já foi frisado, está na contraposição que ele propõe entre a frieza dos números e a emotividade humana, de modo ora sutil, ora enfático, mostrando querer provar um paradoxo, tal qual aquele "dos gêmeos", que Albert Einstein supôs na sua Teoria da Relatividade.

     Em tempo: os poucos momentos realmente matemáticos do filme guardam interesse e veracidade científica. O título no cartaz está entre chaves {}, conhecido símbolo daquela Ciência. A unidade imaginária "i" da Teoria dos Números Complexos é evocada num show de rock (!). E a tal função de Landau-Siegel e as chamadas D-branas, citadas pelo personagem de Gyllenhaal, de fato existem. Estas últimas possuem importante papel na Teoria das Supercordas, a qual Stephen Hawking tentou explicar de maneira popular em seu livro "O Universo numa Casca de Noz". Já as soluções (zeros) da função de Landau-Siegel são tão aplicáveis aos espaços Riemannianos quanto à entropia dos buracos negros. Entendeu algo? Em caso de resposta negativa, pode ficar sossegado, não se preocupe por isso. Certamente Madden, Paltrow, Hopkins, o roteirista Auburn e companhia - mais a quase-totalidade da população mundial - também não sabem com desenvoltura o que significa essa linguagem matemática avançada; entretanto, é certo que ela possui uma inegável beleza intrínseca, mesmo aos leigos. A esse ponto, a Ciência supera a Ficção, pois a primeira pode até ser menos excitante, porém é verdadeira ou surge como uma aproximação aceita da realidade (até prova em contrário), e várias vezes se desvela mais surpreendente do que se imagina. Indubitavelmente há beleza na razão, mas essa só pode ser totalmente compreendida sob o manto da emoção. Eis outro paradoxo.


Artigo originalmente publicado no Cine Revista.


A PROVA (Proof, 2005)
Direção: John Madden.
Elenco: Gwyneth Paltrow, Anthony Hopkins, Jake Gyllenhaal, Hope Davis.


FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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