22 de out de 2010

Cada um com seu Cinema




por Luiz Santiago


1º Segmento: Cinema ao ar livre 


(Raymond Depardon, Egito, 2007)


     Em Cinema ao ar LivreDepardon nos mostra a projeção de um filme para uma plateia. O local antes da projeção, que também aparece em panorâmicas fixas sobre a cidade de Alexandria, é apenas um fim de tarde comum. Em quadros estáticos, observamos o ambiente externo, e vemos como os habitantes deste espaço urbano chegam e se comportam. É a dinâmica de um documentário. Mas não se trata disso. O filme explora a relação dos espectadores com o que observam na tela, e também o seu espaço e o ambiente em torno do cinema. 

     Certamente o curta seria mais eficaz se parasse por aí. Ou quem sabe no momento após a aparição do cartaz do filme exibido. Mas o diretor comete o seu erro do filme ao concluí-lo. Aquele “kino pravda”, “cinéma verité” ou seja lá que nome se dê a esse tipo de exposição do cotidiano, perde o seu motivo. Sem mais nem menos, de um congelar uma mulher e um garoto comendo pipoca em frente ao provável espaço da exibição, há o corte final, sem aviso nem intenção... 

     O curta vale pela simplicidade do começo, pela fotografia noturna muito bem iluminada, com nuances de cores vivas para as tomadas externas. Mas além disso, não convence muito.




2º Segmento: Um belo dia 


(Takeshi Kitano, Japão, 2007)


     Um homem vai a um cinema no meio do nada, (tentar) assistir ao filme Kids Return. Ele chega em uma bicicleta, por um caminho de terra. Ao redor do pobre cinema, um campo muito verde. Há uma ponta de humor sugerida por Kitano, porque a sessão simplesmente não acontece, pelo menos não do jeito que deveria acontecer.

     Há um cachorro dentro da sala, cadeiras velhas, algumas sem estofado. Há um momento em que o negativo do filme pega fogo. E ao fim, já bem de tardinha, há o infeliz do espectador que sai da sala, e percebe que roubaram sua bicicleta.

     Não digo que tudo nesse curta seja um pecado. O quadro para a fixação do título do filme é uma beleza, e Kitano sabe editar e escrever muito bem. O que incomoda o espectador é a improbabilidade do tema.


3º Segmento: Três minutos 


(Théo Angelopoulos, França, 2007)


     Jeanne Moreau: “Hoje de manhã, você ainda dormia quando eu acordei. Ouvi sua respiração profunda. E, através do cabelo que escondia seu rosto, vi seus olhos. Eu engasguei de emoção. Além do seu rosto, pude ver algo mais puro, e ainda mais profundo, no qual eu me via refletida. Eu via a mim mesma. Numa emoção que continha todo o tempo que nos resta de vida. Todos esses anos estavam lá. Também havia os que vivi sem conhecer você, para conhecer você. Naquele momento, percebi como o amo. A emoção foi tão intensa que meus olhos se encheram de lágrimas...

     Angelopoulos não consegue fazer filmes simples, e Trois minutes é um exemplo disso. É um curta complexo em sua proposta, mas incompleto como um todo. E para ajudar ou piorar,  é um filme  assumidamente saudosista, realizado in memorianO apicultor e A Noite são os "filmes homenageados". O saudosista Angelopoulos nos quis mostrar o que se perdeu no cinema e quase foi feliz, não tivesse ele também deixado o curta necessitando de "mais".



4º Segmento: No escuro 


(Andrei Konchalovsky, Rússia, 2007)


     Em algum canto de Moscou, entre refrigeradores repletos de Coca-Cola, podemos ver o cartaz de Oito e Meio de Fellini. Na bilheteria, uma plaquinha de “volto em 15 minutos”. Na plateia, apenas três pessoas: aquela pessoa que deveria estar no caixa, e um casal de namorados, que, na verdade, estão ocupados no ato de sua própria sessão de Emmanuelle... A crítica do diretor aqui é inteligente, o filme tem fôlego, quase respira por si só. Não fosse a secura da câmera, o ar impessoal que ele imprime ao filme, certamente o curta seria melhor palatável.



5º Segmento: Diário de um espectador 


(Nanni Moretti, Itália, 2007)


     Nesse filme, Nanni Moretti se transforma em cinema. Seus olhos, suas sensações, ele próprio se projeta na tela... A cena inicial desse curte, do próprio diretor sentado em uma poltrona de uma sala de cinema vazia, com meio-rosto aparecendo, é de um tom muito pessoal. Daí para a frente, trabalha-se fatos pessoais, acontecimentos, pessoas e visões de cinema. Até o momento decisivo em contar para o seu filho que seus filmes não são iguais a Matrix. O curta tem humor, tem uma canção, tem drama, tem o suficiente para dizer que o seguimento é realmente bom.



6º Segmento: Cinema Princesa Elétrica 


(Hou Hsiao-Hsien, Taiwan, 2007)



     Neste curta, Hsiao-Hsien perde totalmente a mão, o filme decepciona por começar bem e terminar miseravelmente muito mal. No início, temos uma belíssima cena na frente de um cinema em uma rua de Taiwan, por volta dos anos 50. Então, há um avanço temporal e estamos em 2008, onde o belo cinema de outrora está destruído, exibindo um filme de carrinhos de bate-bate. A tentativa de criticar o abandono do tal cinema é até clara. Mas o modo como isso nos é exposto, dói, de tão pobre. E dói mais ainda por saber que não é por falta de não saber fazer que o diretor cometeu esse filme.

7º Segmento: Na escuridão 


(Jean-Pierre e Luc Dardenne, França, 2007)


     Quando eu vi pela primeira vez este segmento, não percebi que a personagem era cega. Aliás, há quatro segmentos no filme inteiro, que mostra espectadores cegos. Este, o do Iñarrítu, o do Kaige e o do Ruiz. Dos quatro, o melhor é o do Kaige, mas o do Iñarrítu e o do Ruiz não são ruins. Na escuridão é quase péssimo. O filme começa de maneira até interessante, com alguém engatinhando pelo cinema. Um ladrão. Na sessão de Au Hasard Barthasar, de Bresson, tudo começa e termina. No momento em que o curta deveria nos emocionar, é quando tudo se torna  nulo de emoção. Uma pena, porque os diretores são ótimos. Mas não é aqui que fazem um bom trabalho.



8º Segmento: Absurda 


(David Lynch, EUA, 2007)


     Metáfora, metafísica, ambiente onírico, não-linearidade: que mais ingredientes para dar um bom exemplo do universo que David Lynch cria em seus filmes? O curta, por pouco não alcança o patamar de Eraserhead - guardadas as devidas proporções. A começar do título e da alusão à Absurda, no próprio curta, tudo dança. É experimental. Lembra os primeiros momentos do cinema. É duplamente metalinguístico, surreal, e absurdo. Como a absurda frase de Cindy, no final: “Aí eu fui dançar. Eu sempre adorei dançar.

9º Segmento: Anna 


(Alejandro González Iñarrítu, México, 2007)


     Aqui há a exploração de três ambientes distintos, com suas cores, sons e modos diferentes de fotografia para cada um. O interior, com as indicações da dificuldade e angústia de Anna vendo um filme do Godard; a entrada do cinema, e por fim, a rua. Talvez a coisa mais clichê que ele comete é o fato de explicar ao espectador, em meio minuto, que ela é cega, e que o cara ao lado dela no cinema não a havia abandonado. Mas ao invés do beijo, há o abraço. Isso, para mim, é uma quebra, e vale ser dito. A música, e a boa postura de Luisa Williams, valem, como boa parte do todo, muito.



10º Segmento: Assistindo ao filme 


(Zhang Yimou, China, 2007)


     O curta de Yimou é um primor. Uma jóia. Até esse momento do filme, o melhor curta. Não é piegas, não é chato, tem romance, tem humor, tem adultos, jovens, crianças, velhos, tem crítica à sociedade industrializada, tem música, tem tecnologia, tem roteiro, tem panorâmica, close, primeiro e segundo plano, planos gerais excelentes, fotografia meio aquarelada, e os rituais. Uma atenção especial para a excelente atuação do ator-mirim Wang Liang. Poucos filmes dizem tanto em tão pouco tempo. O único deslize é o fade-out final.

11º Segmento: O dibbouk de Haifa 


(Amos Gitai, Israel, 2007)


     O filme de Gitai não foge muito à regra geral, o que me incomoda um pouco. O dibbouk de Haifa emociona, é brutal. A sobreposição das imagens, o filme escolhido na representação interna e a passagem do tempo e lugar (Varsóvia, Haifa), são pequenos tijolos que constroem o muro para que a bomba e o ataque aéreo o destrua, representando mais um capítulo da história local. O problema é que não passa do normal.


12º Segmento: A Joaninha 


(Jane Campion, Nova Zelândia, 2007)


     O curta da diretora neozelandesa é um pequeno conto social. Como sempre, a temática corrente para ela é a posição da mulher na sociedade. O título e a alegoria no curta são interessantes. No final, louva Gilles Jacob, chamando-lhe cavalheiro; um dos seus maiores erros. 

     Mas afora isso, a direção de arte não erra, o figurino é bem apropriado, o roteiro e a voz das personagens não caem no abismo do sem-nexo, são engraçadas, e a Erica Englert tem uma ótima performance. O que deixa a desejar é a falta de uma alusão mais fixa, mais pontual, ao cinema, algo de simbologia maior que a projeção sendo usada como refletor.



13º Segmento: Artaud sessão dupla 


(Atom Egoyan, França, 2007)


     Eu tentei. Vi umas seis vezes o curta, mas ainda estou confuso. O filme é interessante porque flerta com os novos formatos. Mas além disso não entendi o pequeno enredo. Mas mesmo sem entender a proveniência dos gemidos e a estranheza de certos momentos, devo dizer que não odiei o curta. Gostei do que vi. O filme é bem estruturado e montado. Mas... Aceito explicações.

14º Segmento: A Fundição 


(Aki Kaurismäki, Finlândia, 2007)


     Bato de novo na tecla da improbabilidade. Me desculpem, mas eu não superestimo a burguesia. E sou pessimista. Vocês já viram uma fundição com um cinema? Nem eu. O curta mostra operários que na hora do almoço, vão ao cinema. Filme da vez: La sortie des usines Lumière. Mais improvável ainda, pois além de ser um filme de 2 ou 3 minutos, é um tanto raro tê-lo, quanto mais em uma fábrica, uma fundição. Mas não é impossível, e na verdade, isso é o que menos incomoda. Agora, uma fábrica com um cinema...

     Coisas legais do curta: a projeção em si, a receptividade na entrada do KINO, a cara dos operários ao ver o filme, e a possível intenção dramática da música.

15º Segmento: Recrudescência 


(Olivier Assayas, França, 2007)


     Embora não seja sobre cinema, o curta usa o cinema. E dá muito bem o recado que pretende. Ambientes diversos, muito bem enquadrados por uma câmera inquieta, nervosa, tema central bem desenvolvido, bem finalizado. Não reifica o romance, não explica nada. As coisas ficam quase no ar, apenas ligadas por elementos que a maravilhosa edição fornece. Se há algum pecado, é exteriorizar demais os conflitos pessoais das personagens, o que não seria um pecado, se a proposta não fosse criar filmes sobre cinema.



16º Segmento: 47 anos depois 


(Youssef Chahine, Egito, 2007)


     Eu gostei mais do curta depois de tê-lo visto pela terceira vez. Claro, Chahine faz coisa muito melhor, e com a facilidade que tem em pegar temas triviais e transformá-los em importantes epopeias, faria um sublime curta. Mas não perdeu muito a linha. Tem cinema? Tem. Tem crítica? Tem. Talvez a temática escolhida por ele tenha me causado estranheza. Pareceu-me um curta de auto-ajuda. É óbvio que essa não foi a intenção do diretor, e o filme tem sua graça, apesar de tudo. Mas...

17º Segmento: É um sonho 


(Tsai Ming Liang, Taiwan, 2007)


     Sim, é um sonho. Por isso não reclamo das lombadas do roteiro. Reclamo do modo como tudo se desenvolve. O filme tem 5 quadros fixos. O melhor deles é o inicial, que não tem nada a ver com cinema. Os de dentro da sala são neutros. Não emocionam, não fazem pesa... É um sonho, ótimo. Mas o curta não não se revelar um pesadelo.



18º Segmento: Profissões 


(Lars von Trier, Dinamarca, 2007)


     Foi o único segmento que me fez rir de verdade e com gosto. Mas não é engraçado. É tenebroso. A escolha do martelo para ser a arma do crime foi genial. O que torna tudo mais tosco, grotesco... Isso no melhor sentido possível. O título e o enredo combinam perfeitamente. A edição é didática e a atuação do Trier também. E tudo ainda fica melhor quando o roteiro é uma cena de “Manderlay”, filme a que o grupo de críticos estão assistindo. Uma mini-pérola de Lars Von Trier, que a seu jeito irônico, mostra sua experiência em cinema.


19º Segmento: O presente (diálogo de um cinéfilo cego e sua sobrinha antropóloga) 


(Raoul Ruiz, Chile, 2007)


     Além da questão antropológica (que na verdade é apenas uma vaga citação) o filme explora o lado exótico dos indígenas, os alucinógenos, a borboleta colorida de um filme preto e branco, o inglês, o francês, a igreja, o rádio, o cinema, Casablanca, cegueira, negócios, viagens... Tudo é muito simples e ao mesmo tempo, ganha proporções complexas dentro do mundo que se enquadram. Ruiz mistura o sonho com o real, e o resultado talvez seja reticente demais...

20º Segmento: Cinema de Boulevard 


(Claude Lelouch, França, 2007)


     Do mesmo modo que Moretti e Chahine, Lelouch colocou eventos de sua vida acompanhando a linha do tempo metacinematográfica. Mas de modo extraordinário. Com cenas de Top HatA grande ilusãoQuado voam as cegonhas e Um homem, uma mulher, o diretor nos guia pela história do mundo e de sua vida. Um verdadeiro filme sobre cinema.

21º Segmento: Primeiro beijo 


(Gus van Sant, EUA, 2007)


     Primeiro beijo é clichê. O fato de ser possível (para muita gente o primeiro beijo foi no cinema), não significa que isso seja padrão. E também não significa que já pelo título era inevitável não ser clichê. O início do filme, até a parte em que o menino se prepara para entrar na tela é bom. Tem toda a graça do mundo. Mas depois... não acrescenta em nada, não faz nada diferente. Se iguala a todos os outros.


22º Segmento: Cinema erótico 


(Roman Polanski, França, 2007)


     Outra vez a improbabilidade. Não é impossível o que temos aqui, mas é improvável. Caro leitor, se você fosse assistir a um filme no balcão (platéia superior), você cairia de lá? E se caísse, ainda continuaria vivo, ou acordado? E se continuasse, teria forças para ficar gemendo ao invés de pedir socorro? Ou teria forças para tirar o ingresso do bolso da blusa e mostrar a alguém? Ou para falar que caiu? Por que não falaria antes? A queda não teria produzido algum barulho? Ninguém teria ouvido? Percebido? Bem... o filme só tem a graça de ter criatividade. Só.



23º Segmento: “No suicídio do último judeu do mundo no último cinema do mundo


(David Cronenberg, Canadá, 2007)


     Quem já viu Videodrome e Marcas da violência sabe muito bem que os filmes de Cronenberg não são nada agradáveis. Aqui, ele juntou ficção à provável futura realidade do cinema. O resultado é uma sociedade fascista (tal qual a de Fahrenheit 451) que tem como objetivo destruir todos os cinemas do mundo. O dono deste último refúgio disfarçado, é um judeu (interpretado pelo próprio Cronenberg), que ao ser descoberto, resolve se suicidar. Apensar da forma estética pobre, o filme tem roteiro muito bem escrito e cheio de humor negro, satírico. Bem oportuno.



24º Segmento: Viajei 9000 Km para dar isso a você 


(Wong Kar Wai, Hong Kong, 2007)


     É simplesmente o curta mais emocionante, mais bonito, mais bem atuado, fotografado, editado, musicalizado, ambientalizado e idealizado de todo o filme... É para chorar mesmo.


25º Segmento: Onde está meu Romeu? 


(Abbas Kiarostami, Irã, 2007)


     Apesar da simplicidade, emociona. O curta inteiro é a emoção da última cena de Romeu e Julieta e das lágrimas das mulheres. Muitas lágrimas. O curta é uma reflexão. E a prova de que não é necessário um show pirotécnico para que plateias se emocionem. Uma câmera bem usada, a registrar emoções de alguém, um bom roteiro e um propósito, fazem muito mais do que milhões de dólares podem fazer. Porque há coisas que nenhum dinheiro pode comprar ou produzir.

26º Segmento: A sessão do último encontro 


(Billie August, Dinamarca, 2007)


     Em A sessão do último encontro, August trabalha o suspense com primazia. É um Hitchcock existencialista. A questão racial, os atores, o cenário (cena inesquecível a da sala de projeção, com todos juntos), o filme escolhido, tudo tem um lugar certo, nada é demais, nada de essencial falta. Um dos melhores curtas do filme.

27º Segmento: Esquisito 


(Elia Suleiman, Israel, 2007)


     Tudo no curta é realmente esquisito. Mas não no sentido pejorativo. Parece mais um surrealismo comedido, tímido. Mas funciona.

     Um cineasta pretende fazer uma coletiva com a plateia após a projeção de seu filme. Mas a coisa não acontece, porque não é planejada para acontecer, e o filme também não é. A plateia é apática, e a sequência do banheiro é de causar inveja aos irmãos Coen. Típico filme para peixes fora d'água. Tem humor e técnica. Suleiman não ignora o que faz.



28º Segmento: Encontro extraordinário 


(Manoel de Oliveira, Portugal, 2007)


     Além de político, é bem humorado. E irônico. O piano, a ausência do som e da cor dão ao filme maior comicidade e valor. A finalização talvez seja imprecisa, e isso de certo modo causa impacto negativo. Mas não peca todo o tempo, e faz rir.

29º Segmento: A 8944 km de Cannes 


(Walter Salles, Brasil, 2007)


     Definitivamente não! E olha que não é por falta de garra, porque Walter Salles praticamente foi o motor criativo do cinema brasileiro por uns anos... E apresenta isso! Ou ele não entendeu a proposta ou ele enlouqueceu. É para fica chocado. Primeiro, porque é filmado fora do cinema. Era para ser metalinguístico, prático, visual. Era para ser. Segundo, porque Caju e Castanha são engraçados quando são espontâneos. O que não é o caso aqui.

     Walter Salles é responsável pelo segundo pior curta de todo o filme. O que é uma pena, em se tratando da pessoa, e da variedade de possibilidades que dispunha. Um suspiro de alegria, porque Caju e Castanha são impagáveis, mesmo quando mecanizados.

30º Segmento: Guerra em tempos de paz 


(Wim Wenders, EUA, Congo, 2006/7)


     O que faltou no curta foi maior exploração do que se pede: cinema. Talvez se diminuísse dez segundos da cena inicial, da cena em que mostra os rostos em preto e branco e da cena da festa; no final, teríamos trinta segundos a mais sobre o tema solicitado. Mesmo assim, em grau menor ou maior, tudo está lá. Nas caixas de som penduradas nos postes e nos cartazes dos filmes escritos a giz em uma lousa suja. O filme aborda a questão social africana em meio a essa aculturação ocidental, capitalista. Vale lembrar que isso não é estranho a eles, afinal, as guerras que se seguiram após a independência foram empreendidas por fatores capitalistas, influenciados por potências interessadas no domínio indireto da região. Um micro-documentário sobre sociedade e cinema.

31º Segmento: Aldeia Zhanxiou 


(Chen Kaige, China, 2007)


     Quando escrevi sobre o 7º segmento, eu disse que esse era o melhor dos curtas que tratavam de espectadores cegos. Todo o processo é feito por crianças. A clandestinidade de ligar o projetor, as risadas das gags de Chaplin, a idéia de gerar força pedalando bicicletas... O filme se passa em 1977 e traz o espírito da época. É pueril, inocente, preto e branco. Arte, fotografia e direção estão muitíssimo bem dialogadas aqui. O filme seria perfeito, se não mostrasse a cena final, em 2007.

32º Segmento: Final feliz 


(Ken Loach, UK, 2007)


     Um curta muito bem dirigido e roteirizado. Contundente crítica à indústria cinematográfica mundial. Bom expositor de um pensamento sobre a juventude atual. Com tanto filme imbecil, qual adolescente vai trocar o campo de futebol, o game ou o PC por uma sessão de cinema? Além disso, Loach trabalha brilhantemente com planos longos, o que é algo difícil de se fazer, sem se tornar chato. O curta prende a atenção pelo suspense, é uma crônica bem humorada (a risada do moleque quando o pai fala para o chatão comprar um cachorro quente gigante e enfiá-lo inteiro na boca, é hilária) sobre a relação pai e filho, cinema, futebol, indústria cultural e adolescência. É, sim, um final feliz.

EPÍLOGO


     Excelente sacada dos editores em colocar uma cena de O Silêncio é de Ouro de René Clair. Definitivamente Cada um com seu cinema é obrigatório para qualquer pessoa que gosta de cinema. Por quê? Porque vai de curtas obras-primas a assassínios de criatividade em curta-metragem. E todos nós sabemos que nem só de clássicos e coisas boas vive a sétima arte.


CADA UM COM SEU CINEMA (Chacun son cinéma, França, 2007).




FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.


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