6 de out de 2010

007 Cassino Royale

Bond Reloaded

por Adriano de Oliveira




     Tarantino cantou, mas não levou. Há tempos atrás, o cultuado diretor teve uma conversa com Pierce Brosnan (antes deste largar de vez o papel de protagonista das fitas mais recentes de James Bond), ato em que fez uma curiosa proposta ao irlandês: ele se dispunha a dirigir um filme de 007, com mais conteúdo e menos ação, desde que tal fosse uma adaptação de"Cassino Royale", primeiro livro de Ian Fleming em que aparece o celebrado espião.

     Os produtores da Eon tomaram conhecimento da idéia, pelo jeito. E esnobaram Quentin. "Cassino..." se tornou, sim, o 21º filme da série, mas com Martin Campbell (de Goldeneye) na direção.

     O pior é que, se Tarantino fora injustamente não-creditado pela idéia, esta funciona bem, embora não idealmente. Resetar James Bond, contando sua trajetória do início, parece de fato ter sido a melhor opção possível para se reciclar a série do agente.

     Assim, conhecemos os passos iniciais de Bond no MI6, nos deparando igualmente com um espião protagonista mais humano e mais sombrio em relação aos similares anteriores. Aqui entra o grande problema, ao menos aos bondmaníacos saudosistas e rigorosos: ao longo de mais de 40 anos, fomos acostumados, não se sabe se bem ou mal, a ver 007 como um sujeito cool, cheio de traquitanas tecnológicas para derrotar os inimigos e com uma aura onipresente de refinamento. Assistir agora a um James durão, grosseiro, sem apetrechos e incapaz de escolher seu Martini ("O senhor prefere batido ou mexido?", diz o barman. Bond responde: "E eu com isso?") é, sem dúvida, um choque.




     Há, em verdade, duas maneiras de enfocar "Cassino Royale". Vendo a obra isoladamente do restante da série, é um bom filme, protagonizado por um 007 diferente, "em início de carreira" - precisa-se levar em conta tal fato. Comparando-a com as demais, soa estranha e inconsistente. A pedra foi quase totalmente apagada, e o espectador sente uma ausência de identificação com o personagem central: falta a fleuma de Sean Connery, o sarcasmo de Roger Moore, o cinismo de Pierce Brosnan. O agente britânico de Craig nasce sob o signo da crueza, mas somente com os próximos filmes é que veremos sua marca, e nesse ponto precisamos ter uma certa tolerância com o novo filme.

     Vale destacar o belo trabalho de Daniel Craig (rememorando até, por seu tipo e jeito, o grande Steve McQueen), na composição do personagem, no campo dramático e nas cenas de ação, ao assumir tarefa tão difícil como essa. Campbell, por sua vez, tenta mostrar o mesmo equilíbrio do protagonista de seu filme na direção, e embora não consiga plenamente, também não parece ser o responsável pelo fato de que a "Cassino..." falta cadência. A culpa identicamente não é do experiente montador Stuart Baird; talvez seja devida ao roteiro irregular.

     Notório que, coerência nunca foi o forte dos Bond movies, mas focar em 007 como um sujeito comum e ao mesmo tempo mostrá-lo como um guerreiro imbatível (vide as intensas e inclusive, espalhafatosas, cenas de ação) fica, no mínimo, meio deslocado, quanto mais se comparado ao universo anterior do personagem, onde o clima fantasioso permitia que isso acontecesse naturalmente. Não é o caso, aqui, quando se optou por essa versão "realista". O roteiro se redime, entanto, na trama bem urdida, ainda que visivelmente imperfeita, e nos bons diálogos.

     Os efeitos da repaginação da cine-série pegaram até os famosos créditos iniciais. No lugar da identidade visual norteada pelas sinuosas formas femininas - reportando diretamente às bondgirls -, a nova abertura prima pelos traços rudes dos símbolos dos naipes de cartas e muita sangreira. Que mau gosto!

     Ainda bem que Eva Green (como Vesper Lynd) e Caterina Murino (no papel de Solange) trazem a feminilidade necessária para uma típica fita do agente, mesmo que à anos-luz de distância de memoráveis "garotas Bond" como Daniela Bianchi, Ursula Andress, Barbara Bach e Jane Seymour...



     Felizmente, "Cassino Royale" vem para sepultar de vez qualquer lembrança restante na memória do ridículo filme homônimo de 1967, considerado não-oficial da série (ainda bem!). Com cinco diretores (!) e um elenco estelar - contudo, desorientado -, trazia uma infame abordagem cômica ao mundo de James. A velha versão agora vai definitivamente para o depósito dos grandes equívocos do Cinema. O "Cassino Royale" de 2006, por sua vez, entra para a história das poucas refilmagens superiores ao original. 007 está de volta, do zero - ou melhor, de dois zeros (a famosa licença para matar). Recarregaram a matriz: Bond reloaded.


Artigo originalmente publicado no Cine Revista.

007 - CASSINO ROYALE (Casino Royale, 2006)
Direção: Martin Campbell.
Elenco: Daniel Craig, Eva Green, Mads Mikkelsen, Jeffrey Wright, Judi Dench.


FILME BOM. RECOMENDAMOS ASSISTIR.

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