8 de set de 2010

Profissão: Repórter



por Adriano Oliveira
Coordenador do site Cine Revista e Crítico de cinema (ACCIRS).

Artigo originalmente publicado no Cine Revista em 09/2006, e publicado aqui, na íntegra.


     Lenda viva do cinema, o italiano Michelangelo Antonioni, atualmente com 93 anos de idade, é responsável pela direção de algumas das obras mais significativas da Sétima Arte em todos os tempos. Um desses exemplares se encontra em "O Passageiro - Profissão: Repórter" (1975), recentemente lançado pela primeira vez em DVD, com o título nacional simplificado, empregando somente a segunda designação. Agora tal obra é chamada de"Profissão: Repórter", apenas.

     Neste filme, Antonioni mostra com plenitude seus dons de cineasta, apresentando um vasto domínio de sua arte. O repertório de recursos estilísticos empregado pelo realizador enche olhos, ouvidos e mentes, seduzindo a quem se propõe degustar da obra em questão.

     Antes de se efetuar uma breve análise de parte do cabedal estético de que dispõe "Profissão: Repórter", um resumo de sua ação. O reconhecido jornalista David Locke (Jack Nicholson, contemplando sua grande fase setentista) se encontra na África produzindo materiais para um documentário (presumivelmente, de teor sócio-político). No hotel em que se acha hospedado, conhece o negociante David Robertson, que guarda razoável semelhança para com as suas feições. Um dia, o entediado Locke descobre, antes do que todos, que seu vizinho de quarto morreu subitamente. De impulso, ele resolve assumir a identidade do quase-sósia e seguir o personagem do mesmo, comparecendo inclusive a compromissos de Robertson anotados na agenda do morto. Sucede-se então um suspense reflexivo e existencialista, um road-movie de fato e também da alma.

     Nesse ponto, já se pode perceber que se trata de um filme diferenciado. A incursão psicológica com que é abordado o tema da troca voluntária de identidade, além de denotar nitidamente um matiz existencialista a toda a narrativa, coaduna com uma proposta que Antonioni havia discutido em um de seus trabalhos anteriores, o magistral "Blow Up" (1966): a rotina como o veneno da motivação vital e a necessidade premente de fuga dela para a manutenção saudável do ser. A desilusão de Locke com seu cotidiano o leva a reinventar a própria vida pela via da identidade alheia, o que poderá lhe custar muito caro.

     O leitmotiv onipresente da filmografia do italiano não poderia deixar de marcar presença aqui também. A incomunicabilidade, celebrada sobretudo na trilogia constituída de "A Aventura" (1960), "A Noite" (61) e "O Eclipse"(62), impregna grande parte da narrativa de "Profissão: Repórter", nas mais diferentes formas: na barreira lingüística que separa nativos de viajantes, na preservação da individualidade, no conformismo, na irredutibilidade, e até na abordagem da narrativa, como a personagem de Maria Schneider de quem sequer sabemos o nome. O deserto, enquanto paisagem subjetiva, é a síntese do próprio isolamento do homem, e o diretor escreve poesia visual com tal recurso.

     O modo como Michelangelo filma merece especial atenção. E cabe aqui dizer, como ele enfoca não só a imagem, mas também o som, tudo em nome de uma estética refinada. Cineasta de experimentalismo engajado, Antonioni utiliza armas afiadas para expressar suas idéias, e desfila imagens peculiares - paisagens, arquiteturas e pessoas são enquadrados poeticamente, de maneira única. A obsessão por uma imagética graciosa faz o diretor tanto procurar locações deslumbrantes (as construções de Gaudí e uma estrada arborizada bilateralmente são exemplos) quanto repetir metáforas visuais, como a do cálice transformado em brinquedo, posto a rodar - cena presente também em um anterior a este, "O Eclipse", e em um outro, o bastante posterior "Eros"(2004), obra da qual participa diretivamente em um segmento e sua referência mais recente.

     A imagem também está a serviço de um cinema político, de denúncia, na ótica do diretor: em "Profissão...", há a cena de uma execução de um inimigo do Estado (ou melhor, do poder vigente), autorizada pelo governo. Ocorre que esta não é encenada, trata-se de uma footage real enxertada na narrativa de ficção.

     O movimento da câmera se acha intensamente explorado na concepção fílmica de Antonioni. Às vezes, tem um significado mais lírico, como as chicotadas pendulares na cena em que os personagens de Nicholson e Schneider estão em um bar à beira da estrada - metáfora da inquietação do protagonista. Em outras, adquire uma representação mais descritiva, com a câmera se movimentando na horizontal para acompanhar o olhar humano, seguir as ações, para questionar. A panorâmica, enquanto movimento da câmera-olho, adquire status de instrumento de precisão nesta obra de 75.

     O uso do som é notabilizado por Antonioni, fugindo da burocracia habitual com o qual é usualmente tratado pela maioria dos diretores. O realizador o emprega a serviço da narrativa com uma maestria ímpar, arrebatando o espectador. Como exemplo, na cena em que Locke substitui a foto no passaporte de Robertson pela sua, a voz em off que ecoa nos sugere que Locke está memorialmente reconstituindo um diálogo do passado entre os David, em formato de flashback. Mas não é o que ocorre: a câmera mostraa posteriori que ele (e nós, a platéia) está (estamos) ouvindo o som que vem de um toca-fitas, o qual reproduz uma conversação gravada entre os personagens em questão. As porções sonoras fora de cena na mais célebre passagem do filme - a saber, um extraordinário plano-seqüência de sete minutos de duração - são de uma riqueza admirável e fundamentais para se compreender a conclusão da trama. Destaque para o estampido de um tiro abafado pelo som do arranque de um veículo.

     É justamente esse tal plano-seqüência a cereja do bolo estético confeitado pelo diretor. Dos pontos de vista técnico e semiótico, se apresenta extraordinário, pois se assenta na maior parte em um zoom lentíssimo, que sai do quarto de Locke para ganhar o mundo exterior a ele, e encerra mostrando o local de onde partiu, então sobre nova perspectiva. Michelangelo também o emprega como um truque, hipnotizando a platéia e brincando de esfinge. A câmera não aponta para a ação: descobrimos o que está acontecendo pelo som fora do quadro, e ainda assim sem uma elucidação completa. Em verdade, Antonioni dá uma pequena e preciosa pista, quando, em passagem fundamental para a compreensão dos fatos, ele desloca a câmera sutilmente para a direita, de modo a aparecer o tênue reflexo de um vulto no vidro da janela do quarto. Confira com calma e atenção.

     Por sua praticidade, o DVD permite que possamos assistir repetidas vezes trechos preferenciais ou o filme inteiro. Através das revisitações, é possível progressivamente entender melhor a "Profissão: Repórter", bem mais que a um simples olhar, pois se trata de uma obra que exige tal demanda para que se faça uma extensa exegese. A análise aqui apresentada foi realizada ainda no calor de uma única sessão do filme, e certamente, é preliminar e incompleta, por sua natureza. Serve como um prólogo superficial à estrutura complexa que tal película apresenta. Inegavelmente, tal tarefa seria facilitada caso a distribuidora tivesse tido a preocupação de legendar em português as duas faixas de áudio com comentários originais em inglês - uma com o ator do filme Jack Nicholson, outra com seu roteirista Mark Peploe e a opinião da jornalista Aurora Irvine. Entretanto, para obras como "Profissão: Repórter", todo o comentário é pouco. Aqui, se encerra uma humilde tentativa nesse sentido.


PROFISSÃO: REPÓRTER (Professione: Reporter / The Passenger, produção Itália-França-EUA-Espanha, 1975).
Direção: Michelangelo Antonioni.
Elenco: Jack Nicholson, Maria Schneider, Ian Hendry, Jenny Runacre, Steven Berkoff, Ambroise Bia.

FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!


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