1 de out de 2010

Batman - O Cavaleiro das Trevas



OU 

CORINGA ETERNAMENTE


por Adriano de Oliveira



     É preciso tirar o chapéu para o realizador Christopher Nolan. Esse inglês conseguiu devolver credibilidade à série cinematográfica do Homem-Morcego após ela ser implodida pelo terrível filme de Joel Schumacher em 1997. Com "Batman Begins" (2005), o diretor e co-roteirista Nolan pavimentou o caminho para um novo rumo em se narrar as aventuras do alter-ego heróico de Bruce Wayne. Começou do zero, abriu mão do fantasismo que minou seu predecessor e optou por utilizar como sua base a ligação com a realidade.

     Pois o trabalho mais recente do cineasta, "Batman - O Cavaleiro das Trevas" ("The Dark Knight", 2008), segue os padrões estético, conceitual e sobretudo, de qualidade, que nortearam "Begins". A conexão com o real permanece. A fotografia de Wally Pfister, usual colaborador de Nolan, mantém - e melhor, aqui acentua - a escura estampa gótica do primeiro. O elenco ajuda deveras para o êxito da película. Michael Caine e Morgan Freeman, nomes de peso, repetem seus personagens competentemente e apóiam na tarefa de dar uma boa sensação de continuidade entre as obras. Quem também retorna é Gary Oldman, mas este faz mais que a coadjuvância de seus colegas célebres: se destaca deles no acento dramático com sua participação como o Tenente Gordon. Um veterano e esquecido Eric Roberts é trazido de volta aos holofotes por bom trabalho de casting, como haviam feito com o decadente Rutger Hauer em 2005. Christian Bale novamente cumpre bem o papel-título. Maggie Gyllenhaal e sua voz ronronante dão um pouco a mais de sal ao papel de Rachel Dawes, fazendo esquecer a chatinha Katie Holmes de antes.



     Como é usual nesse tipo de filme, os vilões roubam a cena. Aaron Eckhart, um ator irregular (estão aí atuações dele tão díspares qualitativamente entre si quanto o são as de "Obrigado por Fumar" de 2005, e "O Núcleo" de 2003), tem grande momento como o promotor Harvey Dent, e sua transição inicial para o maligno Duas Caras é bem explorada pelo roteiro, que já o "engatilha" para a próxima aventura cinematográfica do Cruzado Embuçado. Entanto, tal roteiro já não tem a mesma felicidade quando rejeita em mostrar as origens do Coringa, inclusive por se negar ao uso do flashback como recurso. A vida pregressa do personagem é pinçada pontualmente, de forma textual ao longo de alguns diálogos: bom para a imaginação, mas preguiçoso na realização e um tanto pretensioso em querer fazer do Palhaço do Crime um vilão absoluto, sem maiores explicações para seu comportamento e seus desígnios. Essa falha no esmiuçamento do papel em questão é compensada pelo mérito da interpretação impressionante de Heath Ledger em seu derradeiro trabalho. Atingiu ele o Coringa definitivo, batendo aquele de Jack Nicholson no filme de Tim Burton, e que naturalmente não pode ser comparado ao de Cesar Romero na série de TV sessentista - esse deliberadamente hilário e, por tal fato, de outra estirpe.


     Ledger está assustador. Construiu um vilão com acento fortemente naturalista, mostrando ir além do método stanislawskiano de arrancar o papel do íntimo de seu intérprete. Ele o revestiu de nuances que lhe dão uma autenticidade marcante, usando recursos como grunhidos, tiques nervosos e gestos desmesurados que poucos fariam eficientemente, e jamais chega às raias dooveracting. É inimaginável como aquele ator que com ar blasé fechou contrato para o papel de arquiinimigo de Batman acabaria se embrenhando visceralmente em tal tarefa, ao menos do que fora reportado e do que pode ser sentido na tela. Dizer que isso tenha alguma relação com seu óbito é das duas, uma: funesta especulação ou mito hollywoodiano (embora especulações e mitos não sejam necessariamente mentiras e dêem muito pano para manga: ainda hoje se fala da morte acidental de Brandon Lee durante as gravações de "O Corvo" - 1994). A sua indicação póstuma ao Oscar figura possível, ainda que qualquer campanha nesse sentido encontre o problema do esquecimento (faltam quase seis meses para a temporada do prêmio) e também uma barreira histórica a ser vencida. O último vencedor falecido foi há mais de trinta anos atrás, Peter Finch por "Rede de Intrigas" (1976). A Academia de Hollywood já ignorou premiações na mesma condição para verdadeiras lendas da indústria americana, como Spencer Tracy e James Dean. Aclamaria Ledger? Dificilmente, embora os tempos atuais sejam outros.



     Não há de se negar o quanto o roteiro de "O Cavaleiro das Trevas"privilegia, salvo alguns poucos escorregões, uma construção profunda de seus personagens essenciais. Isto traz um reflexo imediato: a edificação de um forte núcleo dramático, raro para um blockbuster. Esse aspecto desenvolto da trama praticamente sustentaria a película por si só, cabendo às cenas de ação física um papel secundário, complementar. Só que Nolan e seu irmão, que escreveram o texto, acabaram dando ouvidos demais aos críticos de"Batman Begins", os quais, entre diversos disparates, falaram desdenhosamente de que aquele se tratava de "um filme de ação...sem ação". Como resultado, esta acaba transbordando no novo exemplar. Felizmente, ela nunca aparece postiça, mas ganha lá seus exageros, que surpreendem em um filme do britânico. Quase toda vez que Batman está na tela, tem pancadaria rolando. Algumas das cenas de ação têm influência da escola do clipe, flertando com o estilo que acha em Tony Scott e Michael Bay dois de seus expoentes: cortes rápidos, pirotecnia, intensidade, muita informação visual em cenas bem curtas. O diretor se permite até a fazer com sua câmera doistravellings circulares, quase consecutivos. Para quem foi acusado de ser "água morna" anteriormente, é praticamente um choque - e não deixa de ser algo curioso.



     Talvez o que também cause uma certa estranheza no espectador que vê a "O Cavaleiro das Trevas" é o fato de ser um filme que aparenta desejar servir a dois senhores ao mesmo tempo. Quer ser um drama consistente (e sintonizado com o nosso tempo) e igualmente apresentar ação de qualidade. Consegue satisfatoriamente fazer os dois, mesmo que à base de um vigorosotour de force, se empenhando para não deixar o ritmo oscilar, ao longo e ao custo de mais de duas horas e meia de projeção. Aliás, a meia hora final...Deixa a dever quanto ao destino de um personagem fundamental, mas merece ser perdoada, pois abriga um elogioso exercício de tensão com direito a um momento tipicamente hitchcockiano. Aos segundos derradeiros dela, surge um involuntário (ou não) paralelo com o finalzinho de "Os Brutos Também Amam" (1953), note isso e verá ainda o quanto Shane e Batman têm traços em comum, como o protótipo "forasteiro que vem para tentar fazer justiça".

     A nova aventura do Homem-Morcego não é apenas uma reedição do velho mote narrativo da luta entre o bem e o mal. Mais do que tal, trata de um combate entre a ordem e o caos, entre a civilização e a barbárie, e por essas causas, resulta numa dupla alegoria: a da batalha urbana dos dias atuais nos seus mais diferentes estratos e a dos conflitos internos do homem quanto aos seus princípios morais.


Artigo originalmente publicado no Cine Revista.



BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS (The Dark Knight, 2008).
Direção: Christopher Nolan.
Elenco: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine, Gary Oldman, Maggie Gyllenhaal, Morgan Freeman, Eric Roberts, Monique Curnen, Chin Han.


FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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