3 de ago de 2010

Hair



por Luiz Santiago



   O Musical é o gênero cinematográfico mais “irreal” de todos os gêneros, disparado na frente da ficção científica (se o leitor ainda duvida, compare a “realidade” de 2001: Uma odisseia no espaço com a de Sinfonia de Paris, por exemplo). Assim, um bom musical não deve negar o seu caráter onírico e fantasioso, mas fazer o máximo de relações possíveis (e coerentes) entre os números e os momentos da trama, como em Hair (1979), onde Milos Forman executa com uma boa mão o entrelaçar das diferentes partes, e o resultado é simplesmente brilhante.

   Hair surgiu em um momento histórico de quase completa indiferença social em relação à política, à alma, ao mundo. A juventude anti-guerra do Vietnã, a contracultura, o movimento hippie, a politização que abarcou os jovens dos anos 1960, era praticamente uma sombra de bons tempos passados. Nesse cenário de maior “comodismo”, não é de se espantar que Hair fizesse tanto sucesso: primeiro, porque ressuscitava um período da história dos Estados Unidos (e por tabela, do mundo todo), onde as drogas, o sexo, a música e o antibelicismo, junto a uma forte consciência política, eram o dia a dia de grupos andarilhos preocupados em viajar (em todos os sentidos) e ver a paz; segundo, porque se baseia na famosa peça da Broadway, e tem músicas definitivamente inesquecíveis; e terceiro, porque a adaptação para o cinema não se prendeu às limitações do palco, e ganhou até um ar road-, e aparências de documentário.



   O filme conta a história de Claude, um jovem do interior dos Estados Unidos (Oklahoma), que encontra um grupo de hippies no dia anterior à sua apresentação no Exército. Uma forte amizade se delineia entre Claude e a tribo. Junta-se aí a paixão do jovem soldado por uma garota de uma família rica, sua posterior apresentação no Exército, a ideia de troca de identidade com o amigo, e o final tocante e surpreendente, embalado por Let the sunshine in, (The flesh failures).

   Forman dá liberdade à câmera, e não moraliza o espírito da contracultura, exibindo as cenas de nudez, os diálogos politicamente incorretos, e o comportamento hedônico dos protagonistas. Desde a ótima abertura (que vai de Oklahoma ao Central Park, através de uma série de curtas panorâmicas) ao som de Aquarius, até os excelentes momentos finais (de Three-Five-Zero-Zero e Good morning starshine à já citada Let the sunshine in), o espectador é inserido em um mundo de alucinações, alucinógenos, liberdade sexual, social, política, amizade e amor. O elenco principal, composto por John Savage, Treat Williams, Beverly D’Angelo e Annie Golden é simplesmente fenomenal. Além de cantarem muito bem, realmente parecem hippies, não são como a nada convincente Natalie Wood como uma porto-riquenha, em Amor, sublime amor. A sequência final, quando os soldados entram no avião, que de longe, parece uma grande cova, é um dos elementos estéticos bem executados que compõem o encerramento dessa incrível obra de Milos Forman, que merece ser revista e repensada, especialmente em tempos de sangue e guerra como os nossos – e como foram todos os tempos, desde que o homem soube o que fazer com o metal...


HAIR (EUA, Alemanha Ocidental, 1979).
Direção: Milos Forman
Elenco: John Savage, Treat Williams, Beverly D'Angelo, Annie Golden, Dorsey Wright, Don Dacus, Cheryl Barnes, Richard Bright, Nicholas Ray.  




FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

Twitter Delicious Digg Stumbleupon Favorites More

 
Powered by Blogger