11 de ago de 2010

Cockeyed


por Luiz Santiago

   Cockeyed: Gems from the memory of a nutty cameraman (1925), foi o primeiro curta-metragem de Alvin Knechten, que inicia a carreira em meio às manifestações revolucionárias no mundo das artes, na década de 1920.

   Sem preocupação com a narrativa ou com a linearidade, Knechten organizou fotogramas aleatórios de situações surrealistas ou que fogem totalmente ao habitual.

   As alterações imagéticas do que é captado pela câmera foram feitas na edição, usando-se perfeitas fusões de imagem. O efeito produzido é dos mais impressionantes.

   Na sequência de abertura vemos o mar, e por trás dele, aos poucos, emerge a cidade de Nova York. Quando o fotograma se “encaixa”, percebemos que aquele “pedaço” que não estava ali completava a imagem da cidade, como um quebra-cabeça. A intenção do diretor é fazer valer o título, jogando para o “acaso” (a lente) ou para o espectador a louca perspectiva das coisas: a lente estrábica.

   A segunda sequência mostra um homem de perfil, em primeiro plano, comendo uma lâmpada. A sequência seguinte “divide” o mar embaixo da Ponte do Brooklin: um navio passa a poucos metros de uma cascata.
Na quarta sequência, um navio se aproxima pelo lado direito da tela e um avião sobrevoa o mesmo plano. De repente o avião começa a se multiplicar, ao passo que o navio “empurra” o “plano vazio” do lado esquerdo da tela. O efeito preenche de modo dinâmico todo o espaço, um criativo uso do espaço cênico feito apenas pela montagem. Nas duas sequências seguintes observamos partes da cidade emergirem (tal como na primeira) e se encaixarem no restante estático do fotograma.

   Antes da sétima sequência há um intertítulo: “Quem é maluco agora?”. Segue-se a cena mais criativa do curta: o diretor filmou momentos de diferente intensidade de tráfego em uma rua. Usando uma árvore como uma espécie de ponto-de-fuga ele contrapõe o que vem antes, com o que se segue. “Atrás” da árvore os carros avançam a toda velocidade, mas não os vemos completar seu caminho. Ao passar pela árvore os carros ficam extremamente lentos. Certamente, o melhor efeito do filme, e com certeza, um dos melhores do Primeiro Cinema.

   O mesmo princípio, porém, em situações diferentes, é usado nas três cenas seguintes, mas nenhuma delas mais inventiva que a da “árvore-vórtice-desaceleradora”.

   Como já dissemos, a preocupação com a narrativa não existe, fato que justifica a “incompatibilidade” das sequências. O curta tem apenas três minutos, mas revela uma incrível preocupação com a provocação das percepções mais básicas do espectador, e consegue isso de modo fenomenal e muito criativo.


LENTE ESTRÁBICA (Cockeyed: Gems from the memory of a nutty cameraman, EUA, 1925)
Direção: Alvin Knechten. 


FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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