30 de jul de 2010

Uma Noite em 67




por Luiz Santiago


   Renato Terra e Ricardo Calil são os responsáveis por cunharem um novo diamante brasileiro em celuloide. O documentário desses cineastas, Uma Noite em 67 (2010), filme de abertura do Festival “É Tudo Verdade”, neste ano, possui o raro poder de um documentário ideal: ser plural e bom, ao mesmo tempo.


   O cenário-enredo desta obra é a noite da final do III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, e o recorte narrativo nesse cenário são as principais músicas finalistas e os seus representantes nos bastidores e no palco: Ponteio (Edu Lobo), Domingo no Parque (Gilberto Gil e Os Mutantes), Roda Viva (Chico Buarque e MPB4), Alegria, Alegria (Caetano Veloso), Maria, Carnaval e Cinzas (Roberto Carlos) e Beto Bom de Bola (Sérgio Ricardo – que vaiado incessantemente, quebra o violão, e o arremessa contra o público).

   Terra e Calil dispensam o didatismo e a espécie de documentário jornalístico, desdenham da objetividade diegética inserindo algumas das perguntas feitas aos artistas no presente, e desconstroem a imagem da star, quando não cortam as opiniões que denotam o medo, a vergonha da velhice, as paranoias, os vícios, as mágoas e frustrações desses artistas-ícones para a nossa música.

   Uma noite em 67 (que não se apodera e nem se recente das temáticas político-ideológicas que pululavam nos anos 1960) desconstrói o mito dos “mocinhos cantores” e mostra a genialidade, a insegurança, e o amor pela música daqueles jovens que naqueles anos de ditadura, incomodaram – e muito – os censores e assessores do regime militar. O longa-metragem ainda delineia o caminho pelo qual se enveredou a música brasileira daqueles anos, até cair na semente do que seria o Tropicalismo; e também a rejeição (ideológica, tida como esquerdista naquela época) da guitarra elétrica, o que provocou, inclusive, uma passeata com o tema Abaixo a Guitarra!.

   Com um raro material televisivo conseguido dos arquivos da Rede Record, e entrevistas aos próprios artistas participantes daquela final de Festival, e a pessoas que estavam ligadas a eles ou ao evento, os cineastas conseguem emocionar o espectador. Como podem perceber, não há estripulias narrativas. Trata-se de um documentário simples – formalmente falando – mas de uma fluidez perfeita, editado e filmado de modo a dar gosto de ver. O modo escolhido para narrar a história daquela noite em 67, é muitíssimo bem executado, e o tema é explorado em todos os seus aspectos, dando até mais do que promete. Por isso, o filme parece acabar cedo demais. Ao fim da última cena, com todos os artistas no palco, e Edu Lobo recebendo os aplausos pela música premiada da noite, Ponteio, o espectador não consegue segurar um suspiro de satisfação e alegria (e, para os mais velhos, de nostalgia) por ter pago o ingresso para ver uma obra tão maravilhosamente executada.

Edu Lobo cumprimenta Marília Medalha, com quem cantou Ponteio,
a música vencedora do III Festival de Música Popular Brasileira, em 1967.

   Uma noite em 67 é um filme obrigatório para os que querem saber o que há de melhor em nosso cinema contemporâneo, especialmente em nosso gênero documental, e o que houve de melhor, há alguns anos, na história de nosso país, no tocante a realizações artísticas. Essa visão, no entanto, passa longe da reificação ou de uma exaltação gratuita e sem propósito tanto do período, quanto das personagens que estiveram nesse histórico III Festival de Música Popular Brasileira.

   Um filme para se ver, aplaudir, e rever.



UMA NOITE EM 67 (Brasil, 2010).
Direção: Renato Terra e Ricardo Calil. 

FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!

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