28 de jul de 2010

L’homme-orchestre


por Erivoneide Barros


Uma verdadeira imagem artística oferece ao espectador uma experiência simultânea dos sentimentos mais complexos, contraditórios e, por vezes, mutuamente exclusivos”.

Andrei Tarkóvski


   Acompanhando a biofilmografia de Tarkóvski, fica evidente que, ao terminar seu curso de graduação, o cineasta já apresentava o perfil de esteta que procuraria em todos os seus filmes. Daí surge a sua necessidade de desenvolver uma obra crítica em que pudesse falar sobre suas convicções e de certa forma se justificar diante de uma crítica interna que não soube compreender os seus filmes.

   O diretor soviético, em seu Esculpir o tempo, citou uma frase de Van Gogh que podemos estender ao desejo impresso nos escritos de Andrei: “nenhum sucesso me agradaria mais do que ver minhas litografias dependuradas nas salas e oficinas de simples operários”. (1998, 218).

   Todo artista espera que sua obra seja vista, gere transformação, modifique a sociedade em que vive. Ou seja, almeja deixar um legado por meio do qual as pessoas possam ser transformadas. Assim, nada melhor do que ver a Arte chegar a todas as pessoas, independente da condição econômica e da posição social.


   Tarkóvski trata essas questões de maneira poética em seu trabalho de conclusão de curso na VGIK (Instituto de Cinematografia de Moscou). O filme foi dirigido por Andrei e o roteiro foi escrito em parceria com Andrei Kontchalóvski. Infelizmente a crítica não tem considerado a importância do média por se tratar de um trabalho de graduação. No entanto o trabalho estético e as concepções sobre o fazer artístico que o diretor desenvolverá em sua filmografia emergem nos quarenta e quatro minutos de duração de O rolo compressor e o violinista.

   O ambiente do filme é perpassado pelo universo infantil. Segundo Tarkóvski, o poeta tem a imaginação e a psicologia de uma criança, pois as suas impressões do mundo são imediatas (1998, p. 45). Cabe lembrar, que embora sejam imediatas, as impressões infantis não são, por isso, menos profundas. Outra característica infantil é a fé no mundo que cria. A criança, quando brinca, interfere no mundo interno e externo e propõe uma nova construção da realidade. A fé na veracidade do objeto criado é fundamental para dar vida a uma obra-prima, conforme afirma o diretor soviético.

   No encontro de Sergei e Sasha, Tarkóvski cria uma bela metáfora da tentativa de união da classe operária (Sergei) e a Arte (Sasha). É interessante que tal expectativa é censurada por um outro superior: a mãe de Sasha impede que ele vá ao cinema com o novo amigo.



   Os amigos haviam combinado de assistir ao filme Chapayev – o soldado vermelho (1934), dos irmãos Vasilyev. Esse longa se tornou muito popular na década de 30, na antiga União Soviética. A notoriedade que Chapayev ganhou é considerada, por alguns críticos, como sendo igual à atingida por Eisenstein com O Encouraçado Potemkin (1925). A única diferença estaria na concepção artística presente nas obras. Enquanto Eisenstein, com o seu trabalho, consegue superar as questões políticas internas, alcançando um caráter universal, os irmãos Vasilyev, ao optar por manter uma estrutura carregada do sistema de ideias do Realismo Socialista, não conseguem atingir tal feito.

   É a este modelo de filme comum no regime socialista que Andrei fugiu em sua obra. O diretor afirmou que não estava interessado em eventos ou no desenrolar da narrativa, mas sim nas pessoas e no universo que as envolvia. A escolha de um filme como Chapayev permitiu que o recém-formado diretor propusesse de maneira discreta a sua preocupação, enquanto artista, em transformar o público formado pelas classes populares em admiradores de Arte.

   Assim, Andrei buscava extrair de seu público uma postura ingênua e crente diante da Arte, da mesma maneira como uma criança possui fé diante do mundo que desconhece. Tarkóvski desenvolveu a sua obra com a convicção de que poderia ser (e foi) uma espécie de Stalker capaz de revelar o caminho para que seu público pudesse entender/ intuir os mistérios da zona.


O ROLO COMPRESSOR E O VIOLINISTA (Katok i Skripka, URSS, 1960). 
Direção: Andrei Tarkovski.
Elenco: Igor Fomchenko, Vladimir Zamanski, Marina Adzhubei, Yuri Brusser, Viacheslav Borisov, Aleksandr Vitoslavski, Aleksandr Ilin, Lyudimila Semyonova, Natalya Arkhangelskaya. 


TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. Trad. Jefferson Luiz Camargo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.


*Sobre o autora: Erivoneide Barros é licenciada em Letras, psicopedagoga e pesquisadora do cinema russo com ênfase na obra de Andrei Tarkóvski. Atualmente estuda a escritora Clarice Lispector e ministra aulas para os alunos do Ensino Médio e cursos preparatórios para vestibular e vestibulinho. Contato: neidelit@ig.com.br

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