1 de nov de 2010

Danse Macabre



por Luiz Santiago


   Camille Saint-Saëns é um dos meus compositores preferidos. Portador de uma tremenda erudição musical compôs obras que dialogavam com tendências que iam do romântico beethoveniano aos exemplares populares e culturais como a música andaluza, por exemplo. Em 1874, o compositor escreveu o sombrio e dramático poema sinfônico Danse Macabre, inspirado em um poema homônimo de Henri Cazalis. No poema, à meia-noite, a morte toca um violino em um cemitério, enquanto os esqueletos dançam à sua volta, num festim que dura até o cantar do galo, ao nascer do dia.


   As “danças macabras” ou “danças da morte”, são temas de baladas e pinturas que tem sua origem na Idade Média (séculos XIV, XV). Ora, o motivo de criação tão lúgubre reside no fato de a civilização medieval estar estruturada sobre a ideia de vida como passagem, sendo, pois, o “estar vivo” um período temporal no qual o corpo sofre as dores e as tentações do pecado como uma espécie de teste, para ver se, após a morte, o Paraíso lhe será merecido. A isso adicione as diversas epidemias (destaque para a Peste Negra), o medo insano do inferno, as constantes guerras, os períodos de fome e seca, e as mudanças estruturais pelas quais passavam a Europa medieval àquela altura do século XIV: aumento da importância dos burgos (com a intensificação do comércio), as Universidades, o Grande Cisma da Igreja. Nas palavras de Jérôme Baschet:


   Retornos periódicos da peste negra, efeitos destruidores das guerras e das grandes companhias, Grande Cisma da Igreja: os contemporâneos tinham razões para se sentir assolados pela Providência [...]. O pessimismo invade os espíritos e o sentimento de viver em um mundo que agoniza, que chega ao seu fim, se faz mais presente do que nunca. A obsessão da morte explode em todos os lugares, nas práticas funerárias assim como na literatura e na arte, onde os temas macabros, tal como o Triunfo da Morte, e, depois, as Danças macabras ganham destaque [...]. (BASCHET, Jérôme. A civilização feudal. São Paulo: Editora Globo, 2006. p. 251-252).


Bernt Notke's Danse Macabre in Tallinn

   A própria igreja legitimava essa ideia da morte sempre presente – o que posteriormente, principalmente na sociedade industrial, serviu como “consolo cristão” às colossais diferenças sociais: “a morte um dia igualará a todos”. É nessa sociedade que a criação das Danças Macabras tem total sentido.

   Antes de passarmos para o uso cinematográfico do poema sinfônico de Saint-Saëns ou das danças macabras propriamente dito, vale dizer que cada período histórico foi atormentado por diferentes “fantasmas”, e é interessante observar como essas Danças macabras ganharam significado diferente a cada época. No caso do poema de Henri Cazalis, no qual Saint-Saëns se inspira, pesava sobre a França a derrota na Guerra Franco-Prussiana (1870-71), o extermínio da Comuna de Paris (1871) e as desigualdades sociais em contraponto ao discurso de igualdade (vide o último verso do poema) da III República Francesa (1870-1940).

   No século XX, as agitações no coração da Europa geraram a Dança dos mortos, de Honegger, em 1938. Um ano depois, começaria a Segunda Guerra Mundial.


   Quem assistiu ao magnífico Espelho Mágico (2005) do veterano cineasta português Manoel de Oliveira, pode sentir o poder dramático da Dança Macabra de Saint-Saëns, música-tema que abre e fecha o filme. Depois de vê-lo, eu não consigo mais ouvir a música sem lembrar da deslumbrante obra, que também tem a morte em seu cerne; aliás, diversos tipos de morte: da fé, do corpo, da moral, etc.

   A Dança macabra também esteve em O Sétimo Selo (1957), de Ingmar Bergman, cuja estrutura é a coluna das danças macabras medievais, onde diversas pessoas de diferentes classes sociais, idade, sexo, etc., são “chamados” pela morte. A sequência final do filme, onde a câmera enaltece em grande plano geral as personagens mortas, de mãos dadas, em uma dança pela montanha, é uma dos mais belos exemplos das danças macabras no cinema.


O Sétimo Selo (1957) - Cena Final


   Uma livre adaptação do tema também pode ser visto na sequência final da Parte VI: A Morte, em O sentido da Vida (1983), uma das obras máximas do grupo britânico Monty Python, dirigida por Terry Gilliam e Terry Jones.

   Walt Disney abriu a sua série “dançante” ou “musical” de 75 curtas-metragens (as Silly Symphonies), em 1929, com o curta The Skeleton Dance, também uma livre adaptação para a Dança macabra do poema de Cazalis (mas sem a música de Saint-Saëns).


   Mais por curiosidade do que por temática fiel, citarei por fim o filme Danza Macabra (1964), de Antonio Margheriti. A obra é inspirada em um conto de Poe, que por sua vez busca na balada medieval, os elementos de sua história sombria, que conta com uma ligação do mundo dos mortos com o mundo dos vivos.

   Neste artigo, o nosso objeto de análise mais específica é uma versão da Dança macabra dirigida por Dudley Murphy, em 1922. O filme, de nome homônimo, já apresenta na criativa animação do título os esqueletos guiados pela morte. Vale dizer que o curta usa a música de Saint-Säens como tema.

   A versão adaptada por Murphy tem três personagens: a Juventude (Adolph Bolm – que era bailarino, formado em São Petersburgo, chegando a ser solista do balé do Teatro Mariinsky), o Amor (Ruth Page – também bailarina) e a Morte (Olin Howland – que vinha dos palcos da Broadway). Nesta versão, o Amor e a Juventude enamorados – a cidade-cenário é Praga –, fogem da Morte que os persegue. Refugiando-se no castelo, o casal acredita-se seguros. Um terrível (e, ainda bem, curto) número de “atuação dançante” se segue. O espaço cênico limitado disponibilizado pelo cinema certamente não foi algo pensado pelos bailarinos, que estão literalmente perdidos em frente à câmera e “acuados” pelo pequeno espaço de captação.

   A Morte consegue encontrar o casal, e passa a atormentá-los, quase matando o Amor, mas é impedida pelo cantar do galo, ao nascer do dia. Embora não consiga o seu intento, sua “presença” permanece, dando a entender que ela voltaria na noite seguinte: um horrendo espectro paira sobre o feliz casal, após a Morte desaparecer, “expulsa” pela aurora.


   O curta-metragem de Dudley Murphy é uma interessantíssima experiência cinematográfica. As sobreposições da Morte rondando o casal com sua dança macabra são muito bem feitas, e o efeito visual que traz para o filme é sombrio e experimental.

   Mas os pontos positivos da obra param na glória do campo técnico. Os dois bailarinos (Bolm e Page) são péssimos atores, ruins mesmo. A atuação afetada e insuportavelmente caricata de ambos (misturado a uma estranha leveza, que eles trazem do balé) os torna ainda piores.

   Ora, sabemos que o atuar caricato é uma “herança” do teatro, muito comum no Primeiro Cinema. Mas em um filme experimental, esse tipo de atuação é inaceitável (um curta-metragem avant-garde com toques clássicos do teatro do século XIX!), além do que, no início dos anos 1920, o caricaturesco cênico já havia sido praticamente curado dos seus excessos, sobrando apenas o “aceitável” (que ainda assim era estranhíssimo – vide o filme dentro de Cantando na Chuva, 1952, ou qualquer outro filme hollywoodiano da época).



   Há momentos no filme de Murphy que é impossível não rir das estripulias cometidas pelos dois atores, e mesmo dos primeiros planos feitos pelo diretor, que mostram as expressões de susto e medo, especialmente do Amor (Ruth Page). O que se sobressai ao espetáculo da risível mise-én-scene é a Morte, que, tanto no modo como é inserida (sobreposições, na montagem), quanto da forma como atua, é impagável. Por isso mesmo, essa Danse Macabre de Dudley Murphy deve ser vista: pela própria morte. Irônico, certamente. Mas macabramente verdadeiro.


DANSE MACABRE (Idem, EUA, 1922)
Direção: Dudley Murphy
Elenco: Adolph Bolm, Ruth Page, Olin Howland.


FILME BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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