17 de set de 2011

Dias de 36




por Luiz Santiago


A vida de todas as pessoas é condicionada pela História. Minha vida foi. Quando tinha 4 anos, havia a II Guerra Mundial. Quando tinha 9, a guerra civil na Grécia. A guerra muda toda a vida de uma pessoa, o amor, o lar, a casa. Um dia, meu pai sumiu e achávamos que ele tinha sido executado. Procurávamos o cadáver. Minha mãe me levava pela mão e o procurávamos. Numa tarde, ele voltou. Não tinha sapatos. Havia escapado e andou por três dias para voltar para casa. Então, a grande História teve muito peso na minha vida pessoal. Não tenho como fugir disso naquilo que faço. Na Europa, muitas vezes se quer esquecer a História, mas ela não nos esquece.

Theo Angelopoulos


     Dias de 36 é um filme que marca de maneira comercial e estilística a carreira do diretor grego Theo Angelopoulos, um dos mais aclamados representantes do Cinema Novo de seu país. O filme não é o primeiro na Grécia a abordar as questões político-sociais (posto ocupado por Corrupção Social, de 1932, dirigido por Stelios Tatassopoulos) , mas alcança o pioneirismo quando o assunto é a junção do conteúdo à forma ousada e autoral.

     A estrutura que Angelopoulos edifica em Dias de 36 é um prenúncio de sua identidade cinematográfica, constituída por longas panorâmicas, roteiros que privilegiam o silêncio, constantes movimentos de câmera e metáforas visuais. Em um país onde o cinema acrítico e hollywoodiano tem maior espaço, Angelopoulos se propõe realizar um cinema que raciocina a respeito da conturbada história política da Grécia contemporânea, das condições psicológicas do terror, da violência, e dos indivíduos atingidos pelo seu tempo histórico.

     Dias de 36 conta a história de um assassinato de um sindicalista momentos antes de seu discurso para um grupo de pessoas. O crime alcança uma grande proporção e culmina na prisão de Sofianos, sob acusação de crime político. Já na prisão, Sofianos encabeçará o evento que é praticamente a linha central de todo o filme: o sequestro de um político. A partir daí, Angelopoulos nos apresenta uma história de forma muitíssimo interessante, mas de conteúdo insatisfatório em seu cômputo geral.


     Através de sua constituição interna (as já citadas panorâmicas, planos longos e movimentos de câmera), planificação e edição, o filme consegue passar para o espectador a sensação de marasmo do tempo, seja na prisão, seja na organização burocrática dos setores estatais. De certa forma, o filme é também uma crítica, ou sátira aos militares em sua humanidade parasita e fascista. A crítica prossegue na busca por uma solução: o sequestro da autoridade por um preso político faz toda a hierarquia estatal se desdobrar, num processo de arranjos e tentativas no mínimo patéticas de resolver o problema.

     Mas se temos na interpretação do conteúdo um vislumbre de bom roteiro, o mesmo não se dá com o filme em si, vazio, até certo ponto, porque se sustenta apenas no subjetivo do espectador, na sugestão crítica ao sistema vigente; sugestão essa que para uma plateia com um conhecimento histórico abaixo do mediano permanece um enigma. Angelopoulos não consegue agrupar as metáforas visuais ao filme como um todo. Se a decupagem interna segue um ritmo admirável e tem um significado para o produto, o mesmo não acontece com os quase soltos momentos que vemos na tela. Apesar de ser contado linearmente, o filme aparenta ser mais abstrato do que boa parte das narrativas alineares no cinema.

     O silêncio predominante e a trilha sonora quase inexistentes são fatores aos quais deve-se prestar atenção. Seu significado simbólico (estado no qual o filme se fixa) alcança um poder enorme quando quebrado, e sugere mais elementos para que a imagem ganhe força. Destaca-se também a composição dos planos, especialmente quando há interação dos homens com paisagens naturais, um aspecto que lembra bastante alguns filmes de Miklós Jancsó como por exemplo Os Sem Esperança.




     Num drama político e crítico, Angelopoulos consegue fazer-se mais formal do que conteudista, de onde se vê a fraqueza geral do projeto. Mesmo que alguns setores técnicos sejam impecáveis, o filme como produto carrega uma grande sensação de incompletude, perde-se em sua soltura, não agrupa de maneira lógica ou satisfatória os pequenos pontos da sociedade grega criticados durante toda a duração. De qualquer modo, é uma obra que pode despertar o interesse dos que admiram o diretor, e dos estudiosos da história grega.


DIAS DE 36 (Meres tou '36, Grécia, 1972)
Direção: Theo Angelopoulos
Elenco: Kostas Pavlou, Thanos Grammenos, Giorgios Kyritsis, Christoforos Nezer, Giannis Kandilas, Takis Doukatos.


FILME REGULAR. ASSISTA SE TIVER TEMPO.





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