16 de mai de 2011

Singularidades de uma rapariga loura (2009)



por Luiz Santiago


Tinha o caráter louro como o cabelo – se é certo que o louro é uma cor fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com seus brancos dentinhos, dizia a tudo “pois sim”; era muito simples, quase indiferente, cheia de transigências.

Eça de Queirós


     A primeira experiência de temática realista na literatura portuguesa se deu pelas mãos de Eça de Queirós em 1874, com o conto Singularidades de Uma Rapariga Loura, a história incomum do amor entre Macário de Luísa. Em 2009, meses antes de completar 102 anos, o cineasta português Manoel de Oliveira estreou a sua versão cinematográfica para o conto, um filme simples e curto, porém, dotado de um vigor e poder imagético impressionantes. Não se trata, claro, de uma obra-prima do cineasta, tampouco é a melhor das adaptações de uma obra de Eça de Queirós, para mim, posto ocupado incontestavelmente por O Cerro dos Enforcados (1954), do também diretor português Fernando Garcia.

     Singularidades... é um filme para pucos porque não contém explicações românticas e nem longa exposição cotidiana da vida dos protagonistas, e a maior parte das coisas são sutilmente sugeridas. Seu término abrupto e as indicações de crítica social já vindas do conto, passam desapercebidas por espectadores desatentos. O amor ingênuo é tratado com justa ironia. Após Macário ver a bela imagem de Luísa na janela defronte ao seu escritório, a paixão que o toma é de tal forma destrutiva e idealizada que o jovem arriscará o emprego estável na loja do tio e viajará para Cabo Verde a fim de ganhar dinheiro para casar-se com a bela e singular loira. O que Macário não percebe é o tom absurdamente teatral de seu amor e de seu objeto de desejo.

     Um impulsivo amor gerado pela imagem de uma pessoa não pode ser algo benéfico para ninguém. Na Lisboa conservadora que vemos no filme, essa paixão pela representação de uma mulher torna-se dolorosamente clara. O amor de Macário não é pela mulher Luísa mas sim pela sua lírica imagem com o leque chinês, olhando pela janela. Durante a narração que faz à companheira de viagem no trem até Algarve, Macário ressalta a beleza do leque, mas deixa de lado a beleza da jovem por quem se apaixonara. Além disso, a própria figura de Luísa é uma representação afetada da mulher comedidamente libidinosa, algo que destoa da sociedade representada no filme, e reafirma o gosto do diretor pela questão do “parecer ser”, comportamento que observamos de maneira mais evidente na tríade de ótimos filmes dessa primeira década do nosso século que o diretor realizou: Espelho Mágico (2005), Sempre Bela (2006) e O Curioso Caso de Angélica (2010).

     As constantes mudanças espaçotemporais ganham um toque ágil na edição de Manoel de Oliveira e Catherine Krassovsky. Imagens de Lisboa em diversos momentos do dia nos indicam a passagem das horas e ajudam o andamento do tempo interno do filme, sem carregar a narração. Dessa forma, Oliveira conserva uma particularidade do conto de Eça de Queirós que é um certo desprezo pela temporalidade ou pela linha cronológica dos acontecimentos. Sem ser confuso ou maçante, a alternância entre a narração de Macário no trem, os cortes em fade e as panorâmicas sobre Lisboa ou janelas da cidade ao som de sinos fecham um ciclo vivo de acontecimentos num longo espaço de tempo visto por nós de modo rápido e sucinto.


     A diretora de fotografia zairense Sabine Lancelin deu um toque oportunamente naturalista aos quadros do filme. Mesmo os “ângulos cortados”, técnica geralmente incômoda, são excelentes, e sugerem ao espectador a incompletude e a falta de sentido do romance que se desenrola. A exploração da profundidade e do contracampo servem não apenas como elementos técnicos mas como acréscimos psicológicos, pois ao mostrar a visão de cada um dos protagonistas, Manoel de Oliveira revela a visão ampla ou turva de cada uma das partes.

     O acontecimento final e suas consequências reproduzem a moral burguesa lisboeta e ironizam todo o enredo do filme. Assim como surgira, o amor se esvai rapidamente, embora Macário sofra e admita isso para sua confidente de viagem. Livre da obrigação teatral (mostrar-se uma boa moça para conseguir casar-se), Luísa chega em casa e joga-se na poltrona da sala lindamente decorada e iluminada. As pernas abertas, o corpo curvado e o cabelo caído, retratam uma postura abissalmente diversa da impecável figura na janela que surgira no início do filme. A verdadeira Luísa então revela-se.

     O trem de Macário e sua confidente aparece numa panorâmica seguindo viagem, e então os créditos finais surgem lentamente. Apesar do amor frustrado, a vida de ambos os protagonistas segue, mas os destinos ficam ocultos da tela. Manoel de Oliveira faz um pequeno estudo sobre os costumes e as declarações de amor feitas a outrem sem propósito algum ou sob uma primeira impressão. Longe de uma mensagem moralista, Singularidades de Uma Rapariga Loura incita-nos a pensar sobre qual é o motivo de nossas paixões arrasadoras e as possíveis consequências de insistirmos em alimentá-las.


SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA (Portugal, Espanha, França, 2009).
Direção: Manoel de Oliveira
Elenco: Ricardo Trêpa, Catarina Wallenstein, Diogo Dória, Júlia Buisel, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra, Glória de Matos, Filipe Vargas, Rogério Samora, Miguel Guilherme.


FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.



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