19 de jul de 2010

Narradores de Javé



por Luiz Santiago


Além disso, continuou o cego, a História feita por papéis deixa passar tudo aquilo que não se botou no papel e só se bota no papel o que interessa.

João Ubaldo Ribeiro – Viva o Povo Brasileiro


Nenhum documento é inocente. Deve ser analisado. Todo documento é um monumento que deve ser desestruturado, desmontado. O historiador não deve ser apenas capaz de discernir o que é “falso”, avaliar a credibilidade do documento, mas também saber desmistificá-lo.

Jacques Le Goff – História e Memória



   Desde Kenoma (1997), a cineasta paulistana Eliane Caffé vem demonstrando características autorais e modos muito pessoais de narrar suas histórias. Atentar para essas características é muito importante para se entender o trabalho da cineasta, e por isso, destacaremos das principais recorrências em sua filmografia.

  • Escolha do tema quase absurdo e muito particular, focado em problemas sócio-culturais que afetam uma determinada comunidade.
  • Espaços-cênicos longínquos: interior, extremos do país, sertão nordestino – exceção à sua estreia na TV, com O Louco dos Viadutos (2009), rodado na capital paulista.
  • Personagens que representam diversas “personas”, e que vão do louco ou excêntrico ao conservador ou fanático.
  • Uso de atores profissionais e não-atores, sempre escolhidos nas comunidades-locações.

   Em Narradores de Javé (2003), o segundo filme da diretora, observamos uma ousada precisão no trabalho com a “dinâmica social” e seu ciclo histórico. A câmera constrói através dos 100 minutos de duração do filme, todo o funcionamento e perpetuação de várias facetas da memória popular. Não só o filme se constrói, mas toda uma realidade ganha vida com a iminência de uma catástrofe que afetará a todos. O filme ironiza o fato de a manufatura da história local só se tornar necessária em um tempo pré-escatológico, onde o medo pontua a todos os habitantes, intensificando-se conforme os dias passam e as lembranças de uma idade do ouro nas origens heroicas do povoado contrastam com a triste realidade presente.

   O filme conta a história do Vale de Javé, que está ameaçado pela construção de uma represa para a nova hidrelétrica. A única condição para a permanência do povoado “no caminho da águas” seria o seu tombamento a Patrimônio Histórico. Sem documentos que possam dar conta do importante passado, os habitantes do povoado resolvem escrever a história de Javé com base nos fatos e depoimentos dos moradores – conforme suas próprias lembranças ou histórias ouvidas em outros tempos – função que é incumbida ao “intelectuário” Antônio Biá.

 

   Em Narradores de Javé, os próprios moradores se tornam historiadores, e os depoimentos cedidos estão permeados de parcialidade e louvor a esse ou aquele herói fundador, conforme parentesco ou mesmo devaneios de quem conta. Por sua vez, esses depoimentos devem passar pelo aval de um outro morador (Antônio Biá), que por saber escrever, é o historiador-cientista, aquele que supostamente pode transformar as “mentiras da história oral” em “verdades da história oficial”. O embate entre a ciência e o imaginário popular é constantemente trazido à tona pelo Heródoto-Tucídedes do filme, que em uma frase-chave ilustra todo o embate entre as frentes de opinião:


Ocês sabem de tudo nesse mundo! São dois gênios: Einstein e Santo Agostinho.


   De posse dos depoimentos (que ele não anota, “grava tudinho na memória” para depois passar para o papel “de modo melhor, floreado no estilo gróticos”), Antônio Biá fará um recorte da mescla de tudo o que ouviu, documentando de sua própria memória a história épica do povoado de Javé – se contarmos os níveis de construção interna, teremos um alista.

   O filme é uma construção do começo ao fim, e a palavra é o monumento-documento em destaque, a começar pelo título, que propositalmente já evoca a grandeza dos moradores pela etimologia do nome de seu povoado, Javé (do hebraico YHWH, ou Jeová, o nome de Deus). No artigo Memória, de Jacques Le Goff, há uma abordagem interessante no que diz respeito à importância deste nome para a história do povo judeu:

No antigo testamento é, sobretudo, o Deuteronômio que apela para o dever da recordação e da memória constituinte. Memória que é antes de mais nada um reconhecimento de Yhwh, memória fundadora da identidade judaica […] (2006: 438).


   Ora, o Vale de Javé é, por si só, o vale da memória e dos “ídolos das origens” (Marc Bloch).

   Os créditos de abertura do filme são embalados pela fenomenal música do DJ Dolores, enquanto aparecem entre diversos símbolos gráficos. Letras, vírgulas, pontos, reticências, caracteres orientais, etc., aparecem soltos na tela como se quisessem interferir na construção daquelas palavras que surgem, ou chamar a atenção para o fato de que elas são formadas por aqueles símbolos “sem sentido” que ali pairam.

   O modo como chegamos à história de Javé também é uma narração – de um antigo morador do povoado, que adverte aos ouvintes em um bar sobre a importância da leitura:

Eu mesmo, que não sou das letras, posso contar um reboliço que uma escritura foi capaz de fazer. Ó, foi um caos.

   Sendo o filme a versão da memória de um antigo morador, estamos diante de uma história tão verdadeira ou tão falsa quanto as várias outras narrações. O mais interessante é que vemos no decorrer da narrativa, sequências nas quais Zaqueu (o narrador no tempo presente) não se encontra – ou seja: a maior parte do filme -, o que nos faz concluir que boa parte do que ele ora relata, foi ouvido de outro morador. Ou ainda – e aqui entra o recurso da inserção do espectador como agente vivo dessa história construída -, podemos pensar que a história sabida pelo espectador foi “contada” ao nosso narrador Zaqueu (recurso que o venerável Orson Welles usou em Cidadão Kane, 1941). Mais uma vez, chamamos a atenção para os inúmeros níveis de construção da memória e da história, contidas no filme.

 

   Antônio Biá assume de bom grado o encargo de escrever um épico documental sobre o Vale de Javé. Sua figura impinge respeito no povo da cidade, e por onde ele anda, um grupo de pessoas o segue – todos interessados em ter a sua versão da história no “Grande Livro da História de Javé”. O “documento” ou “Livro da Salvação” ganha características de romance histórico coletivo: Biá é o escritor historiador-cientista que “floreia” os depoimentos que constarão no livro, e cada história tem o “nome, sobrenome e prenome” de seu narrador. Em sua marcha contra o tempo e pelo povoado, Antônio Biá aproveita para abarcar o máximo de vantagens possíveis com a sua privilegiada posição, e gozar a sua presença no povoado, posto que estava banido nos arredores da cidade, por ter mantido seu emprego nos Correios escrevendo cartas caluniosas sobre os moradores de Javé (onde ninguém sabia escrever). Quando é “convocado” para configurar novamente entre os habitantes do povoado, Biá está sentado à porta de sua casa enchendo linguiça – podemos aludir inúmeros significados mas penso desnecessário enumerá-los, dada a clareza do símbolo imagético.

   Já no primeiro depoimento colhido pelo venerável historiador, nos deparamos com o nome elementar para o povo de Javé, o herói fundador do povoado: Indalécio. Segundo o primeiro narrador, Indalécio guiou o povo “que saiu fugido de suas terras no sul porque o rei de Portugal os expulsou para pegar o ouro”, para aquele vale que julgou adequado estabelecer a nova vida de seus seguidores. No depoimento seguinte, a figura de Idalécio é diminuída e até ridicularizada, sendo Mariadina a grande heroína fundadora, a guia do povo por ocasião da longa convalescença de Indalécio. Segundo o relato, Mariadina, “esquecida na história por ser mulher”, enfrentou com bravura as dificuldades do caminho, encontrou o Vale, “cantou as divisas”, e estabeleceu ali o seu povo. Num outro relato, Indalécio, apesar da tremenda diarreia, guiava bravamente o povo pelo caminho agreste, até que encontrou uma feiticeira louca chamada Mariadina, que lhe profetizou a chegada ao vale. Em um dado momento do filme, Idalécio se torna Idalício e depois Indaleo, e Mariadina se torna Oxum. Sobre qual dessas histórias ser a verdadeira e como “florear” tão díspares versões, Antônio Biá não faz ideia. É por isso que ele não escreve sequer uma página do livro-histórico e o futuro do Vale de Javé parece ser a inundação, principalmente após a chegada dos engenheiros e da fixação da grande placa que avisa ser ali o local das obras.

   Eliane Caffé consegue fazer da construção da história uma comédia de altíssimo nível cinematográfico e intelectual, propiciada pela maravilhosa junção de elementos técnicos (desde o roteiro que ela assina cm Luiz Alberto de Abreu) à mise-en-scène mista de diversos estilos. O elenco inteiro é de uma “grandeza javeliana”, especialmente José Dumont e Gero Camilo, em atuações a serem aplaudidas de pé.


   A fotografia de Hugo Kovenski e a câmera de Jorge Pfister mais do que iluminar e enfocar uma obra, criam perfeitamente as diversas versões dos mundos paralelos ao filme, com nuances que vão da saturação de cor à aquarela e sépia, com direito ao uso de câmera digital e 8mm. O filme também se constrói no sentido estético, tendo um modo específico de representação do presente e diversos modos para a representação dos diversos passados. Tanto a excelente edição de Daniel Rezende quanto a (idem) edição de som de Miriam Biderman, cimentam perfeitamente o que as imagens apresentam, não deixando espaço para tempos mortos ou usos injustificáveis de planos próximos ou motivos musicais impactantes.

   Quando Antônio Biá vê todo o Vale de Javé inundado pela represa, e resolve então escrever a história do processo que o levou àquela desgraça, um outro mundo de possibilidades se apresenta, e não há corte para o presente, ficando o espectador com as versões de quem levou ou não o sino da igreja para a carroça, e a voz off do narrador Zaqueu incentivando aos descontentes com a sua história a contarem uma diferente. Quem assiste ao filme, não consegue sair daquele labirinto de palavras, e a verdade e a ficção estão tão misturadas que é impossível escolher apenas uma.

   Narradores de Javé é um exemplo da não existência da verdade absoluta, e do caráter caótico (por que não dizer?) da construção da história.

   Eis um belíssimo exemplar da nossa Retomada.


NARRADORES DE JAVÉ (Brasil, 2003).
Direção: Eliane Caffé
Elenco: José Dumont, Nelson Xavier, Rui Resende, Gero Camilo, Nelson Dantas, Alessandro Azevedo, Maurício Tizumba, Benê Silva, Matheus Nachtergaele, Altair Lima.


FILME ÓTIMO. É IMPERDÍVEL ASSISTI-LO!

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