25 de out de 2010

Memórias de Uma Gueixa


Gueixa: Arte técnica

por Adriano de Oliveira


     Menos de dez anos após seu lançamento, o livro "Memórias de uma Gueixa" de Arthur Golden ganha a sua versão cinematográfica. A história se passa no Japão da primeira metade do século XX e conta a trajetória de Chiyo (a revelação Suzuka Ohgo), uma menina que é afastada de sua família para ser adotada numa casa-academia de gueixas. Em meio a dificuldades e a um sentimento onipresente de inveja por parte de suas convivas, a pequena Chiyo cresce física e mentalmente e, com muita determinação, se torna a mais celebrada gueixa do país, Sayuri (a talentosa Zhang Ziyi, uma atriz chinesa fazendo o papel de uma nipônica, o que por si já é objeto de polêmica).


     O mundo instigante dessas artistas orientais que se ocupam do entretenimento de refinados clientes é descortinado de modo sensível pelo diretor Rob Marshall, indicado ao Oscar da categoria em 2003 pelo musical "Chicago". Coreógrafo de formação, Marshall mostra sua marca em uma bela passagem do filme que assinala o début de Sayuri como dançarina. A capacidade do cineasta em retratar tal universo e os sentimentos da protagonista é proeminentemente auxiliada por um suporte técnico admirável. Entre os figurinos concebidos por Colleen Atwood, responsável por fascinantes trabalhos como "A Bem-Amada" e "Gattaca", destacam-se os notáveis quimonos que vestem os papéis femininos principais. A trilha sonora do veterano John Williams representa uma ressurreição necessária na carreira do compositor, aqui apresentando temas orientais ora decididos, ora sensíveis, que trazem uma bem-vinda tessitura emocional ao complementarem a imagética. John Myhre (de "Elizabeth") e Gretchen Rau (de "Cidade dos Anjos") realizam um impagável trabalho de direção de Arte, em um designusualmente complexo em se fazer, rico em detalhes como convém ao tipo de cenografia exigida. Dion Beebe (de "Colateral") conduz uma fotografia a qual, ao mesmo tempo em que reflete o exotismo oriental, exprime adequadamente cada tipo de emoção com a luz que lhe cabe.


     O mérito maior do filme vem de fato desse apuro técnico, uma vez que o roteiro, a direção de Marshall (sensível, sim, mas arrítmica também) e a opção pelo não-uso da língua japonesa (tema que será abordado adiante neste texto) acabam por sufocar um resultado artístico que poderia ser bem mais aprazível.

     "Memórias de uma Gueixa" calca, em boa parte, no drama, ainda que acabe por escapar de um final amargo ao emular o ato central de "Grandes Esperanças", de Charles Dickens, o qual recebeu competentes adaptações cinematográficas a diferentes épocas, por mãos de diretores tão díspares entre si quanto David Lean (1946) e Alfonso Cuarón (1998). Em verdade, o filme se concluiria de modo bem mais convincente caso se encerrasse cerca de 10 minutos antes do que na edição em que é exibido.


     Aparentemente restrito quanto à temática, "Memórias..." vai além do microcosmo retratado, com resultados negativos e positivos decorrentes disso, e então ao menos dois aspectos precisam ser destacados. O fato de um filme ambientado no Japão ser falado em inglês descaracteriza o enredo em prol de uma ocidentalização do produto, conveniente às platéias americanas. Mas há também cerejeiras em flor: de modo inesperado, a essência da trama é algo que foge ao particular mundo das gueixas; trata-se uma história de luta ante a força do destino, de determinação versus conformismo (bem como da coexistência de ambos), e também uma reminiscência do clássico conto "Cinderela", o que faz o filme soar mais universal do que se poderia pensar.


Artigo originalmente publicado no Cine Revista.


MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA (Memoirs of a Geisha, 2005).
Direção: Rob Marshall.
Elenco: Zhang Ziyi, Gong Li, Michelle Yeoh, Youki Kudoh, Suzuka Ohgo, Ken Watanabe, Randall Duk Kim.

FILME BOM. RECOMENDAMOS ASSISTIR.

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