18 de jun de 2010

O Justiceiro - Em Zona de Guerra

 


por Luiz Santiago


   Desde que os grandes Estúdios de Hollywood perceberam o potencial monetário e as imensas possibilidades de experimentação no campo das adaptações de quadrinhos famosos para a grande tela, o cinema tem recebido levas e levas desse material em potencial. Está claro que muitas adaptações não acrescentam nada à cultura cinematográfica, e quando muito, servem apenas para encher os olhos com um mais do mesmo “rio fugaz que desenrola quilômetros e rodo de ópio óptico”, como bem escreveu Audiberti. Entretanto, se direcionarmos os olhos para além dos compromissos sociais e políticos e das viciadas abordagens puramente ideológicas, poderemos encontrar obras que chegam próximas à perfeição formal e estética, porém quase nunca narrativa. Vale citarmos aqui o visualmente fenomenal Sin City (2005), baseado nos quadrinhos de Frank Miller, e a mais nova incursão nesse campo, também digna de muitos aplausos, Watchmen (2009), dos quadrinhos de Alan Moore e Dave Gibbons. Do Universo da Marvel, compondo essa onda de adaptações, surge entre sangue, balas e ultraviolência, O Justiceiro: em Zona de Guerra (2008), o terceiro filme baseado nas HQ's criadas por Gerry Conway, Ross Andru e John Romita, na década de 1970.

   Dirigido por Lexi Alexander, O Justiceiro: em Zona de Guerra mostra elementos até então não vistos, abordados com menor intensidade, ou até mal trabalhados em outros filmes, tendo sido diminuídos por uma linha narrativa que priorizava outras questões, em geral, morais. E se é preciso enumerarmos as boas razões para o filme de Lexi Alexander ser um destaque, comecemos deste ponto: O Justiceiro não tem moral alguma, o que é mostrado sem a aura do socialmente aceito. Assim como nos quadrinhos, (em par com Conan e Motoqueiro Fantasma), O Justiceiro é a representação de um anti-herói exterminador, que apesar de ter pontos de “humanidade”, é totalitariamente contra os “inimigos da lei”.

   Tanto a personagem principal quanto o filme, por seu conteúdo ideológico, são rancorosos, amorais e insaciáveis de sangue. A teoria da ação pela situação é a linha-base para a história se desenrolar. E tudo funciona diante de uma história tríplice (o passado de Frank Castle, a vida de Jigsaw e a insípida participação do FBI) que se dá pela ação-reação em cadeia durante as quase duas horas de filme.


   O roteiro de Nick Santora e Art Marcum é extremamente simples, medíocre: um homem, ao ter sua família assassinada, busca vingança matando qualquer criminoso, em especial os da Cosa Nostra, que aparecer em seu caminho. Então, os elementos-causa dessa violência começam a aparecer. Está dado o filme. Mas a diretora adapta a obra de forma brilhantemente competente, evitando os erros crassos normalmente encontrados nesses filmes de ultra-ação e cometendo os poucos erros-armadilha, aqueles que se dão pelas cenas que tentam explicar (sempre sem muito sucesso) o passado ou uma situação específica até então desconhecida pelo espectador. A edição, nesse sentido, procura ocultar as falhas narrativas criando, elipse por elipse, os mais diversos espaços urbanos (externas) e os integrando aos discrepantes espaços internos dos sets. Como exemplo, chamo atenção para a sequência em que Jigsaw e seu irmão saem em busca de um Exército para dar eliminar O Justiceiro. O jogo narrativo feito através da montagem consiste em uma voz em off integrando-se a cenas em diversos espaços de tribos do subúrbio, que se integram à figura repugnante de Jgsaw discursando à frente de uma projeção da bandeira dos Estados Unidos, e que alterna-se com cenas externas dele e seu irmão indo em direção a cada um desses espaços. Uma história que apesar de medíocre em seu conteúdo dramático narrativo, é concebida com rigoroso apuro formal (interno e externo) e estético, principalmente fotográfico, o que torna toda ação ainda mais interessante.


  A fotografia de Steve Gainer supera expectativas. Embora trabalhe com uma palheta de cores muito restrita (vermelho ou laranja para as cenas de violência, verde para a delegacia, azul para o abrigo de Castle) ele a usa de modo a lembrar o impecável Christopher Doyle (especialmente a fotografia pontualíssima de 2046). Cada cor é empregada por uma contrastante e uma aproximada, e nenhuma sequência “similar” foi posta como sucessora da outra. O filme ganha um visual fortemente exótico, excessivo em alguns momentos, com luzes por todos os lados, uma verdadeira poluição visual em iluminação, que não enfeiou a obra, muito pelo contrário. A direção de arte acompanhou os excessivos e exóticos passos da fotografia. A cena do bar em que o psicólogo comportamental está bebendo, é o melhor exemplo para citar esse excêntrico (belo e criativo) casamento entre fotografia e arte, neste filme. Uma outra cena é a da casa de Microchip, quando Castle vai anunciar sua viagem para fora da cidade: o tom violeta que ilumina as armas, a disposição dos objetos pelo espaço cênico e os ângulos favoráveis a essa disposição demonstram a incrível noção de cadre e scène que Lexi Alexander possui.


   Dos atores, só vemos representação de verdade, a partir do meio do filme. O início, retirando os já citados elementos estéticos, é fraco, mas compensado por uma rápida e móvel edição. A máfia, especialmente o “Tio G.” são ridiculamente mostrados e atuam pessimamente. O que salva a sequência é o jogo de plongé/contra-plogé usado nas escadarias da mansão em festa, e o ângulo em que o vaidoso Billy, o Belo é mostrado, enquanto fala com o “Tio G.”: na diagonal com o espelho. A própria história do filme, apesar de esbanjar ação desde o início, só ganha verdadeiro fôlego após Billy, o Belo se transformar no desfigurado Jigsaw, o que nos remete ao caso Coringa X Batman. Outras referências cinematográficas podem ser encontradas: a ultraviolência e as gangues de Laranja Mecânica, os saltos no telhado de Matrix, as mortes sangue-mutilação das obras de Quentin Tarantino, o “espírito do exterminador” de James Cameron, a psicopatia de Taxi Driver. Desse modo, a riqueza formal da película, mesmo não sendo essencialmente original, é um louvor à arte cinematográfica.



   A maquiagem, mais do que em qualquer outro tipo de filme, é essencial nessas caracterizações vindas dos quadrinhos. Desfigurar o rosto de Dominic West, a ponto de se tornar irreconhecível é trabalho de uma perfeita maquiagem, e isso se repete em vários casos deste filme. Os figurinos são a própria identidade das personagens. Embora haja variações, parece que cada um usa a mesma roupa durante todo o longa. A música fecha o ciclo, com a junção do heavy metal ao suspense orquestral.


   Embora não seja um filme perfeitamente fechado, O Justiceiro: em Zona de Guerra, mostra que os filmes de ação e violência vindos das HQ's podem seguir seu caminho comercial tranquilamente mesmo usando elementos mais autorais para sua composição. Isso, porém, tem seu preço: o de o público não ir ver (problemas de distribuição para um material considerado "fraco" - o que no caso de O Justiceiro: em Zona de Guerra não é muito justificável comercialmente falando) o que pode acarretar o habitual fracasso de bilheteria, como foi o caso deste filme. Mas em se tratando de produto fílmico, não podemos esquecer que é deste material de risco que é feito o cinema contemporâneo: o pop de pouca qualidade mixado ao autoral nouvellevagueano e independente.


O JUSTICEIRO - EM ZONA DE GUERRA (The Punisher 2: War Zone, EUA, 2008).
Direção: Lexi Alexander.
Elenco: Ray Stevenson, Dominic West, Doug Hutchison, Colin Salmon, Wayne Knight, Dash Mihok.


FILME BOM. RECOMENDAMOS ASSISTIR.

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