10 de mai de 2011

Cópia Fiel (2010)


A Arte Imita a Arte

OU
O ANO PASSADO NA ITÁLIA:
VIAGEM À MARIENBAD

por Adriano de Oliveira


     O cineasta iraniano Abbas Kiarostami acena para sair da sua zona de conforto ao deixar de filmar em seu habitat para o que pode ser um novo rumo na carreira - a internacionalização de seu cinema, disposto a gravar na Europa. Mas esse movimento pode ser apenas um ponto fora da reta, tendo como passo seguinte um retorno ao seu nicho, tal o fez Wong Kar-Wai: após rodar nos EUA "Um Beijo Roubado", ele tornou a Hong Kong para novo trabalho.



     Na realização de "Cópia Fiel", Kiarostami gravou na Toscana, belíssima região italiana, e trabalhou com um duo europeu de atores principais: o barítono - e ator eventual de TV - inglês William Shimell e a aclamada atriz francesa Juliette Binoche. Na trama, um escritor britânico, James Miller (Shimell), vai à cidade de Lucignano promover seu laureado livro "Copia Conforme" e acaba se encontrando com uma francesa (Binoche) radicada na Itália, proprietária de galeria de arte, a qual se propõe a levá-lo para um passeio na cidade, ocasião que será reveladora de e para esses personagens.

     Na primeira metade do filme, há uma constante discussão entre os protagonistas acerca da originalidade. Uma cópia pode ter o mesmo valor do artigo original? É a percepção do espectador quem determina esse juízo de valor? Qual a real função da representação na Arte? Na segunda parte, a clave muda a partir de um episódio cênico e se começa a sugerir que o inglês e a francesa já se conheciam e compartilharam um passado em comum (Ou seria isso uma encenação?).



     "Cópia Fiel" se acha bem abastecido de metáforas e simbolismos, mas além disso é em si um exercício de metalinguagem e um filme-tese. As questões do simulacro, da percepção e da representação (esta, em diferentes sentidos) invadem a película e instigam o espectador.


     Que momento seria mais propício do que este para se falar de "original vs. cópia", em se tratando de Cinema? Proliferam remakes e ideias recicladas nos tempos atuais, sobretudo em Hollywood. As referências a outras obras (bem como as casualidades) se tornaram comuns. Elas estão espalhadas aos borbotões pelos filmes modernos, e disso nem mesmo "Cópia Fiel" escapa (Intencionalmente - ou não?). As diferenças culturais dos personagens, o uso plural de línguas, o tom discursivo e o foco filosófico permanente remetem a filmes de Manoel de Oliveira; a segunda metade da obra é "Jogo de Cena", do nosso Eduardo Coutinho, em pura ação; "Viagem à Itália", grande clássico de Rossellini (já citado por Almodóvar no belo "Abraços Partidos"), se situa como uma referência inegável; e a parte final do longa recicla o leitmotiv de "O Ano Passado em Marienbad", obra-prima de Resnais. Para não se falar na autorreferência a "Através das Oliveiras", também do iraniano.



     As atuações seguras - sobretudo a de Binoche, linda e inclusive sensual no esplendor de seus 47 anos -, assim como o roteiro afiado, dão garantia de bom andamento à obra. A câmera bem postada de Kiarostami (que vai do uso do plano fixo à elaboração de planos-sequência típicos de Amos Gitai, com forte sentido de retratar longamente o "walk and talk" em cena) é um caso à parte. Ora fazendo um notável uso de espelhos para ilustrar o contraplano, ora se colocando de modo que os mais reveladores diálogos se dêem diretamente a ela - o que confunde a câmera subjetiva a um "olhar nos olhos" do espectador -, a lente do cineasta se sobressai. E como autor que se preze, Abbas também acaba referenciando a si próprio nesse sentido com uma sequência pessoal, característica: diálogos a bordo de um carro em movimento, tal qual "Dez" (cabe ali também um destaque para a sensibilidade extrema do cineasta, ao captar a paisagem "passando" pelos viajantes através do reflexo da mesma no vidro dianteiro do veículo).



     A ruptura ou a mesmo a indissociação entre realidade e irrealidade, a questão da percepção e o papel do espectador, as relações entre objeto e representação, e inclusive a complexidade das relações humanas (Vividas? Encenadas? Imaginadas?) são alguns dos temas de um filme que lhe faz pensar para bem depois de as luzes da sala de cinema se acenderem, algo raro hoje em dia.


Artigo originalmente publicado no Cine Revista.


CÓPIA FIEL (Copie Conforme, França/Itália/Bélgica, 2010).
Direção: Abbas Kiarostami 
Elenco principal: Juliette Binoche, William Shimell, Jean-Claude Carrière.


FILME MUITO BOM. FORTEMENTE RECOMENDADO.

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